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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

As Corporações Contra o Mercado


Por Roderick Long
Com certa freqüência, os defensores do livre mercado são acusados de defender as grandes empresas e ser parceiros da elite das corporações. Mas será que essas acusações são justas?
Sim e não. Enfaticamente, a resposta é não – já que o poder das corporações e o livre mercado são, na realidade, contrários; a competição verdadeira é o maior pesadelo das grandes corporações. Porém, em vários casos, a resposta é sim – pois embora a liberdade e a plutocracia não possam coexistir, a defesa simultânea de ambas também é possível.
Primeiro, examinemos a resposta negativa. As corporações tendem a temer a competição, pois ela exerce uma pressão para que os preços caiam e os salários aumentem; além disso, o sucesso de mercado chega sem qualquer garantia em relação à sua permanência, já que depende da capacidade da empresa de superar suas concorrentes na busca da melhor forma de satisfazer as voláteis preferências dos consumidores – e esse tipo de vulnerabilidade às perdas não é nada agradável. Assim, não nos surpreende que durante toda história dos Estados Unidos as corporações tenham sido predominantemente hostis ao livre mercado. Na realidade, a maior parte do aparato regulatório existente – inclusive as regulamentações vistas, incorretamente, como restrições ao poder corporativo – foi efusivamente apoiada, propagandeada e, em alguns casos, até mesmo preparada pela elite corporativa (1).
O poder das corporações depende, de forma significativa, da intervenção governamental no mercado (2). Isso é bem óbvio no caso das formas mais evidentes de favorecimento governamental, como os subsídios, os socorros financeiros (3) e outras formas de assistência corporativa como as tarifas protecionistas; as garantias explícitas de privilégios monopolísticos; e a tomada de propriedades privadas para uso corporativo por meio de desapropriações (como em Kelo versus New London). No entanto, essas formas diretas de intervenção em favor das empresas são suplementadas por um enxame de intervenções indiretas cujo impacto é ainda maior.
Como escrevi alhures:
“Um serviço especialmente útil que o Estado pode fornecer à elite corporativa é a implementação de um cartel. Os acordos que fixam os preços de produtos serão sempre instáveis em um mercado livre, já que embora todas as partes do acordo possuam um interesse coletivo em sua manutenção, cada parte possui interesses individuais em sua quebra, para negociar a um preço inferior aos das outras empresas e tomar seus clientes; e mesmo que o cartel consiga manter a disciplina entre seus membros, os preços do oligopólio tendem a atrair novos competidores ao mercado. Aí está a vantagem da cartelização garantida pelo Estado para as empresas. Em geral, ela acontece diretamente, mas também há meios indiretos, como a imposição de padrões de qualidade uniformes que dispensam as empresas de competir em relação à qualidade. (E quando os padrões de qualidade são altos, os competidores de menor qualidade e preço perdem lugar no mercado.)

A capacidade das empresas grandes de explorar as economias de escala também é limitada em um mercado livre, já que depois de certo ponto os benefícios do tamanho (por exemplo, menores custos de transação) são sobrepujados pelas deseconomias de escala (por exemplo, o caos calculacional resultante da ausência de informações sobre os preços) – a não ser que o Estado lhes proporcione a possibilidade de socialização desses custos, ao imunizá-las contra a competição – por exemplo, ao estabelecer impostos, exigências para licenciamento, para capitalização e outros fardos regulatórios que exercem um impacto desproporcional sobre novas empresas, bem mais pobres quando comparadas a empresas ricas e já estabelecidas (4)”.

A lista também não acaba aqui. Isenções fiscais para corporações representam mais uma forma pouco óbvia de intervenção governamental. Claro que não há nada anti-mercadológico nas isenções fiscais em si; muito pelo contrário. Porém, quando uma empresa é isenta de impostos aos quais seus competidores estão sujeitos, ela se torna beneficiária da coerção estatal contra os outros e, até certo ponto, deve seu sucesso à intervenção governamental e não às forças do mercado.
As leis de propriedade intelectual também ajudam a sustentar o poder das grandes empresas. Mesmo aqueles que aceitam a propriedade intelectual como forma legítima de propriedade privada (5) concordam que o horizonte temporal sempre crescente da proteção dos direitos autorais, junto com penas desproporcionalmente duras para suas violações e excessivas do ponto de vista dos incentivos (medidas pelas quais editores, gravadoras, empresas de software e estúdios cinematográficos fizeram um lobby eficiente), se encontra em conflito com o objetivo expresso na cláusula sobre patentes e direitos autorais da constituição, e tem mais a ver com a maximização dos lucros corporativos do que com a garantia de uma remuneração justa para os criadores originais.
O favorecimento do governo também subscreve a irresponsabilidade ambiental por parte das grandes companhias. Em geral, os poluidores gozam de proteção contra processos, por exemplo, apesar da classificação da poluição como violação dos direitos de propriedade (6). Quando as empresas madeireiras se envolvem na exploração de terras públicas, as vias de acesso são, em geral, financiadas pelo dinheiro dos impostos, reduzindo assim o custo da exploração em relação aos preços de mercado; além disso, já que os exploradores não são donos das terras, não possuem incentivos para explorá-las de forma sustentável (7).
Além disso, políticas monetárias inflacionárias da parte dos bancos centrais também tendem a beneficiar empreendimentos que recebem primeiro o dinheiro, em forma de empréstimos e investimentos, quando ainda estão em vigor preços antigos – e mais baixos – , enquanto aqueles que recebem o dinheiro mais tarde são sistematicamente prejudicados, já que o recebem apenas após a subida dos preços.
E, claro, as corporações têm sido as mais freqüentes beneficiárias das intervenções americanas no exterior, da United Fruit Company na Guatemala, em 1950, até a Halliburton hoje, no Iraque.
Os grandes impérios corporativos, como o Wal-Mart, são freqüentemente festejados ou condenados (dependendo da perspectiva das pessoas) como produtos do livre mercado. No entanto, o Wal-Mart não só é beneficiário direto das intervenções do governo (geralmente de governos locais) na forma de desapropriações e isenções tributárias, como ainda obtém benefícios menos óbvios a partir de políticas de aplicação mais ampla. O financiamento de vias públicas por meio da arrecadação de impostos, por exemplo, constitui de facto subsídios para o transporte, permitindo ao Wal-Mart e cadeias similares socializar os custos do envio de mercadorias, permitindo-lhes competir com sucesso contra empresas locais; os preços baixos que encontramos no Wal-Mart, na nossa posição de consumidores, são possíveis por já termos, indiretamente, subsidiado os custos operacionais da empresa, quando desempenhávamos a função de pagadores de impostos.
O Wal-Mart também mantém seus preços baixos por meio do pagamento de baixos salários; mas o que possibilita o pagamento desses salários é a ausência de alternativas mais lucrativas para seus empregados – e esse fato se deve, em muito, à intervenção governamental. A existência de regulamentações, taxas, condições para licenciamento etc. não afeta todos os participantes do mercado de forma igual; é muito mais fácil para as companhias ricas e bem estabelecidas evitar esses obstáculos do que para as novas companhias que estão apenas começando. Dessa forma, essas regulamentações tanto aumentam o número de empregados se candidatando a uma vaga no mercado (mantendo assim os salários baixos), quanto dificulta o caminho para que pessoas com menos recursos iniciem seus próprios negócios (8). As restrições legais à organização do trabalho também dificultam a organização coletiva dos trabalhadores em seu próprio nome (9).
Eu não quero sugerir que o Wal-Mart e empresas similares devem seu sucesso apenas aos privilégios governamentais; o talento empresarial genuíno também é parte dessa história. No entanto, dada a enorme contribuição governamental para esse sucesso, é questionável que na ausência de intervenção governamental essas empresas estariam em uma posição parecida com a que estão hoje.
Em um mercado livre, as empresas seriam menores e menos hierárquicas, mais locais e menos numerosas (e, provavelmente, várias seriam comandadas por seus empregados); os preços seriam mais baixos e os salários mais altos; e o poder das corporações estaria em ruínas. Não é a toa que as grandes empresas, apesar de elogiarem com freqüência os ideais do livre mercado, tendem a se opor sistematicamente a eles na prática.
Então, de onde vem a idéia de que os defensores do libertarianismo, do livre mercado, estão a serviço dos interesses das grandes corporações? De onde vem a confusão entre a plutocracia corporativa e olaissez-faire libertário? Quem são os responsáveis pela promoção dessa confusão?
Existem diferentes grupos que devem arcar com sua parcela de culpa; (nota: ao falar de “culpa”, não digo, necessariamente, que os “réus” propagam deliberadamente essa confusão; na maioria dos casos suas falhas são apenas negligência, atenção inadequada às inconsistências de sua visão de mundo. E, conforme veremos, esses três grupos têm reforçado, sistematicamente, suas confusões.)
Réu número 1: a esquerda. Por todo o espectro político, do esquerdista moderado ao mais radical, existe uma concordância predominante (embora não universal) (10) de que o laissez-faire e a plutocracia corporativa são praticamente sinônimos. David Korten, por exemplo, descreve os defensores do livre mercado, da propriedade privada e dos direitos individuais como “libertários corporativos”, que defendem “um mercado livre e globalizado que deixam nas mãos das gigantescas corporações as decisões sobre a alocação de recursos” (11) – como se essas gigantescas corporações fossem criaturas do livre mercado e não do Estado – enquanto Noam Chomsky, embora seja astuto o bastante para reconhecer que a elite corporativa teme o genuíno livre mercado, dirá na mesma fala que devemos, a qualquer custo, evitar o livre mercado para que não fortaleçamos indevidamente a elite corporativa (12).
Réu número 2: a direita. Se os críticos esquerdistas dos libertários confundem o livre mercado com a intervenção em favor das empresas, os oponentes direitistas não têm feito nada além de alimentar exatamente essa confusão, já que existe uma tendência comum (embora, novamente, não universal) de os conservadores ocultarem políticas corporativas na retórica do livre mercado. É assim que os políticos conservadores, parasitando pretensiosamente o prestígio de Adam Smith, conseguiram passar a ser vistos – talvez tenham conseguido até ver-se a si mesmos – como defensores dos cortes nos impostos, dos cortes de gastos e da competição sem barreiras, apesar de aumentarem infinitamente os impostos, aumentarem os gastos públicos e promoverem “parcerias” entre o governo e a iniciativa privada.
Observemos agora o termo “privatização”, um termo virtuoso para os conservadores, que possui dois significados distintos e, na realidade, opostos. De um lado, ele pode significar a devolução de algum serviço ou indústria do setor público, monopolístico, para o setor privado, competitivo – retirando o governo da questão; esse seria o significado libertário. De outro lado, ele pode significar a “liberação de um compromisso”, por exemplo, sendo a garantia de privilégios monopolísticos para uma empresa privada pelo fornecimento de algum serviço anteriormente provido diretamente pelo governo. Não há nada que lembre livre mercado na privatização realizada nos termos do segundo significado, já que o poder monopolístico é apenas transferido de uma esfera para outra; isso é corporativismo, ou intervenção em favor das empresas, e não laissez-faire. (Certamente, poderá haver competição na disputa por esses contratos de monopólio, mas a competição para o estabelecimento do monopólio legal não é mais genuína em um mercado do que a votação – pela última vez – para a eleição de um ditador é mostra da genuína democracia.)
Desses dois significados, o corporativista pode, na verdade, ser o mais antigo, vindo desde as políticas econômicas fascistas da Alemanha nazista (13); mas era o significado libertário o objetivo do termo (criado de forma independente, como o contrário de “nacionalização”) quando este atingiu pela primeira vez o uso popular nas últimas décadas. Ainda assim, os conservadores, em geral, cooptaram o termo, o inclinando mais uma vez em direção ao seu sentido corporativista.
Preocupações parecidas se aplicam a outro termo apreciado pelos conservadores, “desregulamentação”. A partir de uma perspectiva libertária, a desregulamentação deveria significar a remoção das diretrizes e intervenções governamentais da esfera das trocas voluntárias. Mas quando uma entidade privada recebe privilégios governamentais especiais, a sua “desregulamentação” equivale a um aumento, não uma redução, na intrusão governamental na economia. Para tomarmos um exemplo, não tão ao acaso, se as garantias de um socorro financeiro financiado pelo contribuinte levam os bancos a fazer empréstimos mais arriscados do que fariam normalmente, os bancos estão ganhando mais liberdade para assumir riscos com o dinheiro de contribuintes que não concordaram com esse esquema. Quando os conservadores defendem esse tipo de desregulamentação, estão amarrando a redistribuição e os privilégios à linguagem da liberdade econômica. Em um momento em que os conservadores propagandeiam os seus planos plutocráticos como políticas de livre mercado, será que podemos culpar os esquerdistas por confundir os dois? (Bem, tudo bem, nós podemos. Mas é um fator que alivia parte da culpa.)
Réus número 3: os próprios libertários. Infelizmente, os libertários não estão entre os mais inocentes – e é por isso que a resposta para a minha pergunta inicial (sobre se é justo culparmos os libertários por serem defensores das grandes empresas) foi sim e não, ao invés de ser um simples não. Se os libertários são acusados de trabalhar em favor dos interesses das corporações isso deve acontecer, em parte, porque, bem, em geral, eles falam como se fosse exatamente isso que estão fazendo (embora aqui, como acima, haja várias exceções honrosas a essa tendência). Considere a descrição de Ayn Rand, um ícone libertário, das grandes empresas como uma “minoria perseguida” (14), ou a forma pela qual os libertários defendem “nosso sistema de saúde do livre mercado” contra a alternativa da assistência socializada, como se o sistema de assistência médica que prevaleceu nos Estados Unidos tivesse sido produto da competição livre, ao invés da intervenção sistemática do governo em nome das companhias seguradoras e da comunidade médica à custa das pessoas normais (15). Ou, mais uma vez, perceba o entusiasmo com o qual muitos libertários correm para defender o Wal-Mart e estabelecimento do gênero como exemplos heróicos do livre mercado. Entre esses libertários, as críticas ao poder das corporações são rotineiramente desmentidas como se fossem parte de uma ideologia anti-mercado. (É claro que essas reações são reforçadas pelo fato de que vários críticos do poder corporativo estejam sob o domínio de uma ideologia anti-mercado.) Assim, quando os analistas de esquerda reclamam sobre os “libertários corporativos” eles não estão apenas confusos; estão respondendo a uma tendência genuína mesmo que, até certo ponto, tenham a compreendido mal.
Kevin Carson criou o termo “libertarianismo vulgar” para a tendência de se tratar a argumentação em favor do livre mercado como se ela justificasse várias características da sociedade corporativista existente. (16) (Eu acho preferível falar de libertarianismo vulgar a falar de libertários vulgares, pois apenas alguns poucos libertários são sistematicamente vulgares; o libertarianismo vulgar é uma tendência que pode aparecer em vários níveis, em pensadores que também podem ter tendências anti-corporativistas.) Igualmente, “esquerdismo vulgar” é o termo de Carson para a tendência correspondente de se tratar a indesejabilidade dessas características da sociedade corporativista já existente como se constituíssem uma objeção ao livre mercado (17). Ambas as tendências misturam o livre mercado com o corporativismo, mas extraem daí morais opostas; conforme Murray Rothbard aponta, “tanto a esquerda quanto a direita têm sido persistentemente iludida pela noção de que a intervenção pelo governo é ipso facto esquerdista e anti-comercial.” (18) E se vários esquerdistas tendem a ver uma defesa dúbia das corporações em pronunciamentos libertários, mesmo quando não há nada a ser defendido, da mesma maneira, muitos libertários tendem a não ver defesas dúbias de corporações em pronunciamentos de libertários, mesmo quando essa defesa ocorre.
Existe uma tendência óbvia de que o libertarianismo vulgar e o esquerdismo vulgar se reforcem mutuamente, já que cada um aceita acriticamente a confusão de plutocracia e livre mercado presumida pelo outro. Essa confusão, por sua vez, tende a reforçar o poder da classe política já que faz ser invisível o verdadeiro libertarianismo: aqueles que são atraídos pelo livre mercado são atraídos a apoiar a plutocracia, assim contribuindo com a direita estatista ou corporativista; aqueles que rejeitam a plutocracia são levados a se opor ao livre mercado, assim ajudando no apoio da esquerda estatista e social-democrata. Mas esses dois lados têm mais coisas em comum do que menos. Nas duas opções, o estatismo vence (19). A percepção de que os libertários são sócios das grandes companhias tem efeitos ruins: primeiro, ela tende a dificultar a atração de convertidos ao libertarianismo, e assim atrapalha o seu sucesso; segundo, os convertidos que ela atrai acabam reforçando o poder corporativo através de sua defesa de uma versão confusa da doutrina.
No século XIX, era mais comum do que é hoje, para os libertários, ver-se como opositores das grandes corporações (20). A longa aliança dos libertários com os conservadores, durante o século XX, contra o inimigo comum do socialismo estatista, provavelmente, teve muito a ver com a reorientação do pensamento libertário em relação à direita; a breve reaproximação entre os libertários e a esquerda, durante os anos 1960, afundou quando a Nova Esquerda implodiu (21). Em resultado disso, os libertários têm estado em situação difícil para combater a confusão da esquerda e da direita dos mercados com privilégios, já que eles próprios nunca se viram completamente longe de confusão.
Felizmente, a coalizão libertários/esquerda está começando a re-emergir (22); e com isso emerge uma nova ênfase na distinção entre o livre mercado e o corporativismo dominante. Além disso, muitos libertários estão começando a repensar a forma como apresentam suas visões e, em particular, o seu uso da terminologia. Pegue, por exemplo, a palavra “capitalismo”, que os libertários durante o último século tenderam a aplicar para dar nome ao sistema que apóiam. Conforme já discuti em outro local, esse termo é, de certa forma, problemático; alguns de seus usos significam livre mercado, outros significam privilégios corporativos e outros (talvez a maior parte) significam alguma mistura confusa dos dois:
Ao dizer “capitalismo”, as pessoas não querem dizer simplesmente livre mercado, nem simplesmente o sistema neomercantilista vigente. Ao invés disso, o que a maioria das pessoas quer dizer com “capitalismo” é esse sistema de livre mercado que atualmente prevalece no ocidente. Em resumo, o termo “capitalismo”, da forma como é geralmente utilizado, esconde uma suposição de que o sistema atual é um sistema de mercados livres. E já que o sistema atual é, na realidade, o sistema do favorecimento governamental de empresas, o uso comum do termo carrega consigo a suposição de que o livre mercado é o favorecimento governamental de algumas empresas (23).
Então, agarrar-se ao termo “capitalismo” pode ser um dos fatores que reforçam a confusão do libertarianismo com a defesa do corporativismo (24). De qualquer forma, se a defesa dos princípios libertários não é mal compreendida – ou pior, se é compreendida corretamente! – como a defesa das corporações, a relação antitética entre o livre mercado e o poder corporativo deverá ser continuamente destacada.
Notas
  1. Para documentação e análises veja Weinstein, James, The Corporate Ideal in the Liberal State, 1900-1918 (New York: Farrar Straus & Giroux, 1976); Kolko, Gabriel, The Triumph of Conservativm: A Reinterpretation of American History, 1900-1916 (Glencoe: The Free Press, 1963); Kolko, Gabriel, Railroads and Regulation, 1877-1916 (Princeton: Princeton University Press, 1965); Weaver, Paul, The Suicidal Corporation: How Big Business Fails America (New York: Touchtose, 1988); and Shaffer, Butler D., In Restraint of Trade: The Business Campaign Against Competition, 1918-1938 (Lewisburg PA: Bucknell University Press, 1997). Para explicações mais breves, veja Roy A., “Big Business and the Rise of American Statism,”Reason, fevereiro de 1971, pp. 12-18, e março de 1971, pp. 9-12 (online: http://praxeology.net/RC-BRS.htm), e Stromberg, Joseph R., “The Political Economy of Liberal Corporatism,” Individualist (maio de 1972), pp. 2-11 (online:http://tmh.floonet.net/articles/strombrg.html).
  2. Isso é particularmente verdadeiro se, como alguns libertários argumentam, a própria forma corporativa (envolvendo a personalidade legal e a responsabilidade limitada) é inconsistente com os princípios do livre mercado. (Para essa posição ver Van Dun, Frank, “Is the Corporation a Free-Market Institution?,” Freeman 53 no. 3 (março de 2003), pp. 29-33 (online: http://www.fee.org/pdf/the-freeman/feat7.pdf); para o outro lado ver Barry, Norman, “The Theory of the Corporation,” Freeman 53 no. 3 (março de 2003), pp. 22-26 (online: http://www.fee.org/pdf/the-freeman/feat5.pdf ).) Entretanto, para os propósitos dessa discussão, vamos supor que a corporação seja legítima.
  3. Long, Roderick T., “Regulation: The Cause, Not the Cure, of the Financial Crisis” (online: http://www.theartofthepossible.net/2008/10/09/regulation-the-cause-not-the-cure-of-the-financial-crisis)
  4. Long, Roderick T., “Those Who Control the Past Control the Future,” 18 de setembro de 2008 (online: http://www.theartofthepossible.net/2008/09/18/those-who-control-the-past-control-the-future); cf. Long, Roderick T., “History of an Idea; or, How an Argument Against the Workability of Authoritarian Socialism Became an Argument Against the Workability of Authoritarian Capitalism,” 2 de outubro de 2008 (online: http://www.theartofthepossible.net/2008/10/02/history-of-an-idea), e Carson, Kevin A., “Economic Calculation in the Corporate Commonwealth,” Freeman 57 no. 1 (junho de 2007), pp. 13-18 (online: http://tinyurl.com/6cm3wo). Para uma defesa mais detalhada, ver Carson, Kevin A.,Studies in Mutualist Political Economy, Booksurge (2007; online: http://mutualist.org/id47.html), e Carson, Kevin A., Organization Theory: An Individualist Anarchist Perspective, ainda a ser lançado (online: http://mutualist.blogspot.com/2005/12/studies-in-anarchist-theory-of.html).
  5. Outra questão disputada entre os libertários; ver, por exemplo, o simpósio do Cato Unbound sobre “O futuro dos direitos autorais” de junho de 2008 (online: http://www.cato-unbound.org/archives/june-2008-the-future-of-copyright).
  6. Rothbard, Murray N., “Law, Property Rights, and Air Pollution,” Cato Journal 2 no. 1 (primavera de 1982), pp. 55-99 (online: http://www.cato.org/pubs/journal/cj2n1/cj2n1-2.pdf).
  7. Ruwart, Mary J., Healing Our World In an Age of Aggression (Kalamazoo: SunStar, 2003
pp. 117-119.
  1. Sobre esse ultimo ponto, ver Johnson, Charles, “Scratching By: How Government Creates Poverty as We Know It,” Freeman 57 no 10 (dezembro de 2007), pp. 12-17 (online: http://www.fee.org/pdf/the-freeman/0712Johnson.pdf).
  2. Para alguma das maneiras pelas quais a legislação em favor dos trabalhadores acaba sendo contrária aos seus interesses, ver Johnson, Charles, “Free the Unions (and All Political Prisoners),” 1 de maio de 2004 (online: http://radgeek.com/gt/2004/05/01/free_the).
  3. Principalmente sabendo que muitos dos libertários contrários às corporações se vêem como parte da esquerda, por exemplo, a Alliance of the Libertarian Left (online: http://all-left.net).
  4. Korten, David C., When Corporations Rule the World, 2nd ed. (San Francisco: Berrett-Koehler, 2001), p. 77.
  5. Long, Roderick T., “Chomsky’s Augustinian Anarchism” (online: http://www.theartofthepossible.net/2008/09/04/chomskys-augustinian-anarchism)
  6. Germà Bel, “Retrospectives: The Coining of ‘Privatization’ e Germany’s National Socialist Party,” Journal of Economic Perspectives 20 no. 3 (Verão 2006), pp. 187-194. Infelizmente, o artigo de Bel mostra pouca sensibilidade para a distinção entre o sentido libertário e corporativista do termo “privatização”.
  7. Rand, Ayn, “America’s Persecuted Minority: Big Business,” Capitalism: The Unknown Ideal (New York: Signet, 1967), pp. 44-62. Para sermos justos com Rand, ela não era completamente cega em relação ao fenômeno do corporativismo; em seu artigo “The Roots of War” (Capitalism, pp. 35-44), por exemplo, ela condena os “homens com impulsos políticos” que buscam “vantagens especiais através da ação governamental em seus países” e “mercados especiais pela ação dos governos no exterior” e assim “obtém fortunas por meio de favores governamentais... que não obteriam em um mercado livre.” Além disso, embora os leitores terminem seu livro Atlas Shrugged (New York: Penguin, 1999) com a vaga memória de que a heroína, Dagny Taggart estava lutando contra os burocratas perversos que queriam impor regulamentações injustas sobre a sua companhia ferroviária, na verdade, a luta de Taggart é contra os burocratas perversos que, junto com seu irmão/patrão, desejam conceder à sua companhia favores especiais e privilégios à custa de seus competidores. Para uma análise sobre o que Rand compreendeu corretamente em relação ao corporativismo, veja Long, Roderick T., “Toward a Libertarian Theory of Class,” pp. 321-25, in Social Philosophy & Policy 15 no. 1 (1998), pp. 303-349 (online: http://praxeology.net/libclass-theory-part-1.pdf and http://praxeology.net/libclass-theory-part-2.pdf).
  8. See Long, “Roderick T., “Poison As Food, Poison As Antidote,” 28 de agosto de 2008 (online: http://www.theartofthepossible.net/2008/08/28/poison-as-food-poison-as-antidote).
  9. Carson, Kevin A., “Vulgar Libertarianism Watch, Part 1,” 11 de janeiro de 2005 (online: http://mutualist.blogspot.com/2005/01/vulgar-libertarianism-watch-part-1.html).
  10. Carson, Kevin A., “Vulgar Liberalism Watch (Yeah, You Read It Right)” 21 de dezembro de 2005 (online: http://mutualist.blogspot.com/2005/12/vulgar-liberalism-watch-yeah-you-read.html).
  11. Rothbard, Murray N., Left and Right: The Prospects for Liberty (Cato Institute, 1979; online: http://www.lewrockwell.com/rothbard/rothbard33.html)
  12. A relação entre as grandes empresas e um governo grande é como a relação entre a igreja e o Estado na Idade Média; não é de cooperação harmoniosa, já que cada uma das partes deseja ser a parte dominante (e se o resultado parece ser mais socialismo ou fascismo depende de que lado é o dominante no momento), mas os dois lados dividem o interesse na subordinação da sociedade à essa parceria. Ver Long, “Poison As Food,” op. cit.
  13. Ver Long, Roderick T., “They Saw it Coming: The 19th-Century Libertarian Critique of Fascism” (2005; online: http://lewrockwell.com/long/long15.html)
  14. John Payne, “Rothbard’s Time on the Left,” Journal of Libertarian Studies 19 no1 (Inverno 2005), pp. 7-24 (online: http://mises.org/journals/jls/191/191_2.pdf).
  15. Ver, por exemplo, os blogs coletivos LeftLibertarian.org e TheArtOfThePossible.net.
  16. Long, Roderick T., “Rothbard’s ‘Left and Right’: Forty Years Later” (2006; online: http://mises.org/story/2099)
  17. Da mesma forma, William Gillis tem sugerido o abandono do “livre mercado” em favor do “mercado libertado”: “você ficaria surpreso com a diferença que faz uma mudança no tempo do verbo. “Livre mercado” dá a impressão de ser algo que já existe e, dessa maneira, perpetua o mito vermelho de que o corporativismo e a desumana acumulação de capital são conseqüências naturais da liberdade de associação e da competição entre indivíduos... mas “libertado” possui um elemento de distância... ele nos retira do presente e nos joga no campo teórico de “depois da revolução”, onde – como os socialistas – nós ainda podemos utilizar os exemplos atuais para dar suporte à teoria, mas não estamos amarrados à defesa implícita de todos os horrores do mercado atual.” Gillis, William, “The Freed Market,” 31 July 2007 (online: http://williamgillis.blogspot.com/2007/07/freed-market-one-of-tactics-ive-taken.html).
Traduzido por Ordem Livre


Roderick T. Long é um anarquista de mercado de esquerda e leciona filosofia no Auburn University. É presidente do Molinari Institute e do Molinari Society.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O Subsídio da História


Por Kevin Carson
Um número considerável de libertários comenta a respeito da escala de subsídios e proteções em favor das grandes empresas, e sua importância estrutural para a forma existente de capitalismo corporativo e no estreito entrelaçamento de interesses corporativos e estatais na atual economia capitalista de estado. Prestamos menos atenção, contudo, no papel da coerção estatal no passado, nos séculos anteriores, no assentamento das fundações estruturais do sistema atual. A medida na qual as concentrações atuais de riqueza e poder corporativo são o legado de injustiças do passado, eu chamo de subsídio da história.
O primeiro e, provavelmente, o mais importante subsídio da história é o roubo da terra, pelo qual a maioria dos camponeses foi privada de seus justos direitos de propriedade e se transformaram em arrendatários forçados a pagar aluguel com base em títulos artificiais de “propriedade” das elites privilegiadas pelo estado.
Obviamente, todos esses títulos artificiais não fundamentados em apropriação por meio do trabalho individual são completamente ilegítimos.
Como Ludwig von Mises destacou em Socialism, o funcionamento normal do mercado nunca resulta num estado de coisas no qual a maior parte da terra de um país torna-se “propriedade” de diminuta classe de proprietários ausentes (rendatários) e a maioria camponesa paga aluguel pela terra na qual lavra. Onde quer que isso seja encontrado, é resultado de coerção e roubo no passado.
Murray Rothbard, em A Ética da Liberdade, explicou a injustiça da propriedade feudal:
 Mas suponha que, séculos atrás, Batista estava cultivando o solo e, portanto, possuindo legitimamente a terra; e então aquele Albuquerque aparece e se estabelece perto de Batista, reivindicando, através do uso de coerção, o título da terra de Batista, e extraindo pagamento ou "aluguel" de Batista pelo privilégio de continuar a cultivar o solo. Suponha que agora, séculos depois, os descendentes de Batista (ou, para nosso propósito, outros familiares ou chegados) estão cultivando o solo, enquanto os descendentes de Albuquerque, ou aqueles que compraram seus títulos, ainda continuam a exigir tributos dos agricultores modernos. Sobre quem recai o verdadeiro direito de propriedade em tal caso? Deveria estar claro que aqui... temos um caso de agressão contínua contra os verdadeiros donos — os legítimos proprietários — da terra, os agricultores, ou camponeses, pelo dono ilegítimo, o homem cujo título original e contínuo da terra e dos seus frutos veio da coerção e da violência. Do mesmo modo que o Albuquerque original era um agressor contínuo do Batista original, os camponeses modernos estão sendo agredidos pelos possuidores do título da terra derivado de Albuquerque. Neste caso, que poderemos chamar de "feudalismo" ou "monopólio da terra", os proprietários de terras feudais ou monopolistas não possuem título legítimo à propriedade. Os "locatários" atuais, ou camponeses, deveriam ser os donos absolutos de suas propriedades, e, como no caso da escravidão, os títulos da terra deveriam ser transferidos aos camponeses, sem compensações aos proprietários monopolistas.
Portanto, em vez de defender todos os títulos de terra existentes em nome da “inviolabilidade da propriedade” e protestar quando algum governo esquerdista estabelece uma reforma agrária que transfere títulos de terras feudais para os camponeses, Rothbard era a favor de 1) dividir as plantações do Sul e dar a escravos americanos libertados “quarenta acres e um burro,” e 2) transferir os latifúndios de oligarquias fundiárias na América Latina para os camponeses.
No Velho Mundo, especialmente na Grã-Bretanha (onde a Revolução Industrial começou), a expropriação da maioria camponesa por uma oligarquia latifundiária politicamente dominante ocorreu ao longo de vários séculos no final da Idade Média e início do período da modernidade. Começou com o cerco dos campos abertos no final da Idade Média. Sob a dinastia Tudor, feudos da Igreja (especialmente terras monásticas) foram expropriados pelo estado e distribuídos à aristocracia fundiária. Os novos “proprietários” despejaram ou cobraram aluguéis extorsivos dos camponeses.
Expropriação do Campesinato
O Parlamento da Restauração (Restoration Parliament) do século XVII levou a cabo uma série de “reformas” agrárias que aboliram completamente a posse de terra feudal — mas só por cima. Havia duas maneiras pelas quais o parlamento poderia ter abolido o feudalismo e reformado a propriedade. Poderia ter tratado os direitos de posse consuetudinários do campesinato como título genuíno de propriedade no sentido moderno, e em seguida ter abolido seus aluguéis. O que na realidade fez foi tratar os “direitos de propriedade” artificiais da aristocracia fundiária, da teoria jurídica feudal, como direitos reais de propriedade no sentido moderno; às classes fundiárias foram dados títulos oficiais por lei, e os camponeses foram transformados em arrendatários, de modo arbitrário, sem restrições consuetudinárias aos aluguéis que poderiam ser cobrados. O mais importante componente dessa “reforma” foi o Estatuto de Fraudes (Statute of Frauds) de 1677, que revogou direitos de posse de aforamento, tornando-os nulos para as cortes reais.
Finalmente, os Cercamentos Parlamentares (Parliamentary Enclosures) dos séculos XVIII e início do XIX despojou o campesinato de seus direitos aos recursos comuns. As classes proprietárias da Inglaterra viam a independência econômica proporcionada pelos recursos comuns como uma ameaça, primeiro a uma oferta adequada de trabalho assalariado agrícola na própria terra da oligarquia fundiária e, depois, a uma adequada oferta de trabalho em fábrica com disposição para trabalhar durante longas horas com baixa remuneração. A literatura das classes proprietárias da época foi muito explícita quanto a sua motivação: as classes trabalhadoras não trabalhariam duro o bastante ou de forma barata o bastante enquanto tivessem acesso independente aos meios de subsistência. Elas teriam de ser tornadas tão pobres e famintas quanto possível para se dispuser a aceitar trabalho em que termos que lhes fosse oferecido.
Uma versão do mesmo fenômeno ocorreu no Terceiro Mundo. Nas colônias europeias onde já vivia um grande campesinato nativo, por vezes, os estados concediam títulos semi-feudais a elites fundiárias para que cobrassem aluguel dos que já viviam na terra e a cultivavam. Um bom exemplo é o latifúndio, que prevalece na América Latina até os dias de hoje. Outro exemplo é a África Oriental Britânica. Os 20% mais férteis do Quênia foram roubados pelas autoridades coloniais e o campesinato nativo foi expulso, para que a terra pudesse ser usada para lavoura com fins econômicos por colonos brancos (usando o trabalho do campesinato expulso, obviamente, para trabalhar). Quanto àqueles que permaneceram em sua própria terra, foram “estimulados” a entrar no mercado de trabalho assalariado por um rígido imposto comunitário que tinha de ser pago em dinheiro. Multiplique esses exemplos por cem e terá uma vaga ideia da enorme escala de roubo nos últimos 500 anos.
Contrariamente à versão florida de Mises acerca da Revolução Industrial em Ação Humana, os donos de fábricas não foram de modo algum inocentes no tocante a tudo isso. Mises afirmou que os investimentos de capital sobre os quais o sistema de fábricas foi construído vieram, em grande parte, de trabalho duro e de trabalhadores frugais que economizaram seus próprios ganhos como capital de investimento. Na verdade, porém, eles foram parceiros menores das elites fundiárias, com muito de seu capital de investimento vindo da oligarquia fundiária Whig ou dos frutos do exterior do mercantilismo, da escravatura e do colonialismo.
Além disso, os empregadores das fábricas dependiam de rígidas medidas autoritárias do governo para manter os funcionários, reduzindo o seu poder de barganha. Na Inglaterra, a Lei do Assentamento (Laws of Settlement) funcionou como uma espécie de sistema de passaporte interno, impedindo os trabalhadores de viajar para fora da terra de onde nasceu sem permissão do governo. Desse modo, os trabalhadores foram impedidos de “votarem com os pés”, isto é, procurar empregos mais bem remunerados entre outro lugar. Você pode pensar que isso teria funcionado em detrimento dos empregadores em áreas insuficientemente povoadas, como Manchester e outras áreas do norte industrial. Mas não tema: o estado veio em socorro dos empregadores. Como os trabalhadores foram proibidos de migrar por iniciativa própria em busca de melhores salários, os empregadores foram liberados da necessidade de oferecer salários altos o suficiente para atrair agentes livres. Em vez disso, eles foram capazes de “contratar” trabalhadores leiloados pelas autoridades da Lei dos Pobres (Poor Law) da região, em termos estabelecidos por conluio entre as autoridades e os empregadores.
Discriminação Legalizada Contra os Trabalhadores
As Leis das Associações (Combination Laws), as quais proibiram os trabalhadores de se associarem livremente para negociar com os empregadores, foram aplicadas inteiramente pelo direito administrativo, sem quaisquer proteções do direito consuetudinário devido processo legal. E só foram aplicadas contra associações de trabalhadores, e não contra associações de empregadores (tal como a lista negra dos “problemáticos” e a fixação combinada dos salários). A Lei do Tumulto (Riot Act) de 1714 e outras legislações de policias estaduais durante as Guerras Napoleônicas foram usadas para conter a ameaça de revolução interna, essencialmente tornando a classe trabalhadora inglesa em população inimiga ocupada. Tal legislação criminalizou a maioria das formas de associação.
Até associações fraternais de ajuda mútua, benefícios para funerais, assistência médica e outros, funcionavam em face da hostilidade do estado, de acordo com historiadores do movimento da sociedade amicais, tais como Bob James e Peter Gray. Sob os termos da Lei da Associação, sociedades amicais foram submetidas à estrita supervisão judicial para evitar que a produção manual direta fosse organizada para permutar entre os desempregados, ou que os benefícios da sociedade fossem desvirtuados e funcionassem, de fato, como um seguro-desemprego para trabalhadores em greve. A Lei das Sociedades Correspondentes (Corresponding Societies Act), aprovada mais ou menos na mesma época, proibia todas as sociedades que ministrassem juramentos secretos ou que fossem unidas a nível nacional (confederadas)
Portanto a Revolução Industrial foi, de fato, construída em cima de um sistema de pilhagem legal na qual os empregadores estavam diretamente envolvidos. A forma tomada pelo sistema fabril seguramente reflete essa história. Numa Grã-Bretanha composta de pequenos produtores camponeses, sem quaisquer restrições à livre associação, os trabalhadores teriam sido livres para empregar suas próprias propriedades como capital por meio de instituições de crédito mútuo. A administração ausente e a hierarquia provavelmente teriam sido muito, muito menos prevalente e o sistema fabril, onde existisse, seria muito menos opressivo e autoritário.
Um processo similar ocorreu na colonização das sociedades de colonizadores como os Estados Unidos e a Austrália, por meio do qual as potências coloniais e suas elites fundiárias tentaram reproduzir padrões feudais de propriedade. Em tais colônias, o estado antecipou-se na posse da terra e restringindo o acesso dos trabalhadores. Por vezes deu título de terra desocupada a especuladores de terras privilegiados, que eram capazes de cobrar aluguel daqueles que dela se haviam apropriado (os proprietários legítimos).
E. G. Wakefield, um teórico britânico sobre o colonialismo, do início século XIX defendia tal preferência com argumentos semelhantes àqueles com os quais as classes proprietárias e empregadoras da Grã-Bretanha haviam apoiado o Cerceamento: era mais fácil empregar mão-de-obra qualificada em condições favoráveis ao empregador. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, ele escreveu:
 Nas colônias, os trabalhadores disponíveis são escassos. A escassez de trabalhadores para contratar é a reclamação universal das colônias. Ela é a única causa, tanto dos altos salários que tornam o trabalhador colonial despreocupado, quanto dos salários exorbitantes que por vezes prejudicam o capitalista. . . Onde a terra é barata e todos os homens são livres, onde todos os que assim desejam podem obter um pedaço de terra para si próprio, não apenas o trabalho se torna muito estimado, no tocante à partilha do produto do trabalhador, mas há a dificuldade em obter mão-de-obra a qualquer preço que seja.
Consequentemente, “poucos, mesmo dentre aqueles cujas vidas são raramente longas, podem acumular grandes quantidades de riqueza.”
O discípulo de Wakefield, Thomas Merivale, escreveu sobre o “urgente desejo por trabalhadores mais baratos e subservientes — para uma classe à qual o capitalista pudesse ditar as condições, em vez de estas serem ditadas a ele.”
A preempção da terra foi elemento importante da política colonial no início da história americana. Gary Nash, em Class and Society in Early America relatou concessões de terra na época colonial dos Estados Unidos comparáveis às de Guilherme I na Inglaterra após a Conquista. Em Nova Iorque, por exemplo, as maiores propriedades concedidas pela administração colonial britânica (depois que os Novos Países Baixos foram adquiridos nas Guerras Anglo-Holandesas) variavam de centenas de milhares a mais de um milhão de acres. Governadores continuaram a conceder extensões de terra na casa de centenas de milhares de acres a seus protegidos, até já bem dentro do século dezoito. Sob o governador Fletcher, cerca de três quartos de terras disponíveis foram concedidas a 30 pessoas.
Albert Jay Nock, em Our Enemy, The State (Nosso Inimigo, o Estado), argumentou que “desde a época do primeiro assentamento colonial até os dias atuais, os Estados Unidos tem sido considerado como um campo praticamente sem limites para especulação nos valores de aluguéis.” Muitas figuras de destaque no período final da colônia e inicial da República foram investidores proeminentes nas empresas de muitas propriedades, inclusive George Washington nas Companhias de Ohio, Mississippi, e Potomac; Patrick Henry na Companhia Yazoo; Benjamin Franklin na Companhia Vandalia, e assim por diante.
Em A Ética da Liberdade, Rothbard condenou tal preempção (“açambarcamento da terra, onde reivindicações arbitrárias de terra ainda não lavrada são usadas para manter os primeiros trabalhadores fora daquela terra”) nas mesmas bases de sua crítica aos senhores feudais. Ele recomendou a revogação de todos os títulos atuais relativos à terra não cultivada e a abertura dela para a livre apropriação. Além disso, em casos em que os atuais titulares de hipoteca e donos de terras rastreiam seu título a concessões de terra pelo estado, a reivindicação apropriada encontra-se com aqueles que primeiro se apropriaram da terra, ou de seus herdeiros e cessionários
Homestead Act (tradução livre, A lei da Propriedade) de 1862, uma aparente exceção a essa tendência geral, foi, na verdade, apenas outro exemplo. A maior parte da terra, em vez de ser reclamada nos termos da Lei da Propriedade, foi leiloada para o maior licitante. Mesmo para terras amparadas por essa lei, de acordo com Howard Zinn, a taxa de 200 dólares estava além do alcance de muita gente. Em decorrência, grande parte da terra não foi em absoluto ocupada com base em princípios lockeanos, e sim, inicialmente, foi para os especuladores antes de ser dividida e revendida aos nela estabelecidos. E em comparação com os 50 milhões de acres abrangidos pela lei da propriedade, 100 milhões de acres foram dados como concessões de terra para ferrovias durante a Guerra Civil — livre de custos! Em outras palavras, as classes privilegiadas ficaram com o filé, e os proprietários normais ficaram com o osso.
Mantendo o Sistema em funcionamento
O que descrevi aqui são apenas os atos iniciais de coerção e roubo sobre o qual nossa forma atual de capitalismo industrial foi fundada. Obviamente as coisas não pararam por aí. Uma vez que o sistema estava em funcionamento, ele dependia dos esforços permanentes do estado para manutenção de uma estrutura legal de privilégio, baseada em direitos artificiais de propriedade e escassez artificial: cumprir os direitos absenteístas de terra vaga e não cultivada; barreiras de entrada no setor bancário, tornando o crédito artificialmente caro e escasso; os direitos de propriedade artificiais de patente e direitos autorais; e por aí vai. E a partir do final do século XIX a forma moderna de capitalismo corporativista dependia de intervenção ainda mais maciça do estado: subsídios para transporte de longa distância para tornar as áreas de mercado e o tamanho das empresas artificialmente amplas; os efeitos cartelizadores de patentes e tarifas; cartelização reguladora e indústrias e setores inteiros da economia tanto trazidos à existência ou com mercado garantido financiado pelo pagador de impostos pela perpétua economia de guerra pós-1941.
Ao contrário da mitologia popular, o New Deal não foi uma renúncia a um algum estado idílico preexistente de “laissez faire”. Nunca houve qualquer coisa remotamente parecida com laissez faire. O capitalismo — isto é, o sistema histórico existente tal como realmente se desenvolveu — tem tido muito pouco a ver com mercados livres e muito a ver com roubo e coerção.
Isso não quer dizer que todas as vias para o progresso econômico por meio do empreendedorismo independente foram fechadas. Trata-se de uma luta muito mais árdua do que seria num livre mercado e a área de atuação é injustamente posta em favor dos grandes jogadores.
Na busca por instituir um genuíno livre mercado, os libertários não deviam perder de vista esses fatos. Que lições deveriam os libertários aprender com o relato histórico acima?
Primeiro, nada há de “libertário” sobre a tendência instintiva em correr à defesa dos títulos de propriedade existentes sem levar em consideração a justiça. Como Karl Hess disse no Libertarian Forum, em 1969,
 [O] libertarianismo deseja promover os princípios de propriedade mas . . . de modo algum deseja defender . . . toda propriedade que hoje é chamada de privada. Grande parte dessa propriedade é furtada. Muito dela é de direito questionável. Toda ela está profundamente entrelaçada com um sistema de estado imoral e coercitivo que tolerou, construiu e lucrou com a escravatura; que expandiu e explorou uma política externa imperial e colonial brutal e agressiva, e continua a manter as pessoas numa dura relação servo- senhor até concentrações de poder político-econômico.
Em segundo lugar, na defesa de reformas de livre mercado, temos de considerar o papel dessa herança histórica de injustiça (o subsídio da história) na determinação dos vencedores do sistema atual. Uma “reforma de livre mercado” que simplesmente foque nos beneficiários do assalto, ratificando os privilégios do passado obtidos pelo furto e do qual se beneficiam, irá meramente recompensar a injustiça e proteger seus ganhos ilícitos.
De um ponto de vista ético libertário, o modelo padrão de “privatização” (venda de propriedade do estado para uma grande empresa privada conectada politicamente, em condições das mais vantajosas para a empresa) é, portanto, altamente duvidosa. Isso é especialmente verdadeiro ao se considerar que muito da propriedade foi criada, em primeiro lugar — à custa do pagador de impostos — para o propósito principal de subsidiar os custos operacionais das grandes empresas. Grande parte das empresas de serviço público e infraestrutura de transporte estatal no Terceiro Mundo foram criadas, a mando das elites financeiras transnacionais, como uma precondição para investimento de capital ocidental. E a odiosa dívida adquirida, geralmente por ditaduras corruptas agindo em conluio com a finança global é, então, usada pelo Banco Mundial para chantagear aqueles países a vender sua infraestrutura para as mesmas empresas transnacionais que ele foi criado para beneficiar — geralmente por centavos de dólar.
Um Modelo Adequado de Privatização
O modelo de privatização de Rothbard é muito superior: anula os direitos de propriedade do estado, tratando-a como sem dono, sujeita à apropriação imediata por aqueles que efetivamente nela mesclam seu trabalho. Isso significaria que universidades estatais seriam transformadas em propriedades dos alunos ou do corpo docente, como cooperativas de consumidores ou produtores. Empresas de serviços públicos do governo se tornariam cooperativas de consumidores pertencentes aos pagadores de impostos e fábricas estatais seriam entregues aos trabalhadores e reorganizadas como cooperativas de trabalhadores.
Temos também de ser cautelosos quanto aos argumentos pseudo-coaseanos de que “não importa” de quem a propriedade originalmente tenha sido furtada, porque ela acabará nas mãos do proprietário “mais eficiente”. É essencialmente o mesmo argumento usado para a desapropriação eminente. Independentemente das mãos na qual a propriedade termine, os legítimos proprietários e seus descendentes — que nunca receberam indenização — estão excluídos do valor do que foi furtado deles. E até os modos mais ineficientes de organização da produção são bastante “eficientes”, comparativamente falando, quando se conta com a vantagem competitiva de trabalhar com propriedade roubada.
Ademais, não existe coisa tal como “eficiência” genérica; a eficiência depende da finalidade do proprietário. A técnica mais eficiente para a agricultura de subsistência em um pequeno quintal — economizando em terra mediante melhoramento do solo e adição de insumos intensivos em trabalho — é totalmente diferente do que um oligarca feudal, que produz com objetivo de lucrar com acesso a mais terra roubada do que ele poderia usar possivelmente e, geralmente, mantendo a maior parte de sua terra roubada fora de uso por completo. De qualquer modo, o legítimo proprietário, sem dúvida, acharia muito mais “eficiente” alimentar-se na sua própria terra do que passar fome numa favela por não poder comprar até mesmo o alimento mais barato oriundo dessas plantações “eficientes” ocupando a terra roubada dele.
O atual sistema de economia política que tantos apologistas corporativistas se referem como “nosso sistema de livre mercado” tem-se caracterizado desde o começo pelo roubo. Precisamos ser cautelosos com “reformas de livre mercado” efetuadas pelos ladrões.
Elas equivalem, na prática, a permitir que os assaltantes — mãos ainda cheias de pilhagem — digam: “Tudo bem, sem roubos, a partir.. . de agora!”.
Traduzido por Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme. Revisado por Rodrigo Viana / Matheus Pacini.


Kevin Carson é um anarquista individualista e teórico mutualista contemporâneo cujos trabalhos incluem "Studies in Mutualist Political Economy", "OrganizationTheory: A Libertarian Perspective" e "The Homebrew Industrial Revolution: A Low-Overhead Manifesto", todos disponíveis online. Ele é associado sênior do instituto Center for a Stateless Society (c4ss.org).