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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O liberal como conservador



Originalmente publicado em 1984

Por Bob Black

Eu concordei em vir aqui hoje para falar sobre o assunto “O Liberal como Conservador”. Para mim, isso é tão óbvio que me é difícil encontrar algo para dizer às pessoas que ainda pensam que liberalismo tem algo a ver com a liberdade. Um liberal é apenas um adepto do Partido Republicano que usa drogas. Eu teria preferido um tema mais controverso como “O Mito do Orgasmo Peniano”. Mas já que a minha presença aqui é patrocinada pelo estimado distribuidor de uma autêntica biblioteca de referência sobre desordem e truques sujos, eu não posso apenas pegar a concha [N. T.: referência ao livro O Senhor das Moscas] e transviar. Eu, de fato, irei mutilar a vaca sagrada que é o liberalismo mas, como dito, darei alguns exemplos das ultra-esquerdas à direita ao meu modo. E eu não quero dizer que será de um jeito fácil. Eu poderia apenas apontar para o Trilateralismo do laissez-faire do Partido Libertariano, então sair e procurar por um partido. Não demora muito para dizer que se você lutar em fogo contra fogo você irá se queimar.

Se isso fosse tudo o que eu tivesse a dizer, alguém se levantaria e diria que o Partido Libertariano abandonou a fé liberal assim como os cristãos têm insistido que seus comportamentos ao longo dos últimos 1900 anos ou mais não deveriam ser mantido contra o cristianismo. Há liberais que tentam recuperar o liberalismo do Partido Libertariano assim como há cristãos que tentam reaver o cristianismo da cristandade e dos comunistas (já tentei comigo mesmo) que tentam salvar o comunismo dos partidos e estados comunistas. Eles (e eu) se exprimiram bem mas perdemos. Liberalismo é direitismo-marginal partidarquista [N.T.: partidarquismo é qualquer doutrina política que apoia o sistema partidário-eleitoral institucional] assim como socialismo é, de fato, o que dissidentes do Leste Europeu chamam de “socialismo real”, isto é, o socialismo de estado da vida real de filas, racionamento, corrupção e coerção. Mas eu escolhi não derrubar este espantalho enquanto homem que não faz mal a ninguém. Uma corrente da direta reaganista [N. T.: relativo ao ex-presidente americano Ronald Reagan] obviamente tem apropriado, com seletiva suspeita, de tais temas liberais como desregulamentação e voluntarismo. Ideólogos indignados de que Reagan tem distorcido os princípios deles. Grande bosta! Eu noto que os princípios deles, não os meus, que ele achou adequado imitar. Esse tipo de disputa não me interessa. Meus motivos por considerar o liberalismo como conservador vai muito além disso.

Meu alvo é o que a maioria dos liberais têm em comum — uns com os outros e com os inimigos ostensivos deles. Liberais servem o estado até melhor do que eles declamam contra. No fundo, eles querem o que o estado quer. Mas você não pode querer o que o estado queira sem querer o estado junto, porque o que o estado quer é as condições em que ele se floresce. Minha abordagem (não amigável) à sociedade moderna é considerá-la como uma totalidade integrada. Teorias doutrinárias idiotas que consideram o estado como uma excrescência parasitária sobre a sociedade não pode explicar a sua persistência de longos séculos, a sua contínua invasão sobre o que antes era terreno de mercado ou sua aceitação pela esmagadora maioria de pessoas incluindo vítimas verificáveis.

Uma teoria muito mais plausível é a de que o estado e (pelo menos) esta forma de sociedade possuem uma interdependência simbiótica (contudo sórdida), de que o estado e tais instituições como o mercado e a família nuclear são, em vários aspectos, modos de hierarquia e controle. As articulações dessas instituições nem sempre são harmoniosas (briga por terreno aqui) porém eles partilham de um interesse em comum em confiar seus conflitos à elite ou a resolução de especialista. Para demonizar o autoritarismo estatal, em que ignora arranjos subservientes idênticos, contudo consagrados por contrato, nas grandes corporações que controlam a economia mundial, o fetichismo é pior. Todavia, (para citar o mais vociferante dos liberais radicais, o Professor Murray Rothbard) não há nada de não-liberal sobre “organização, hierarquia, trabalho assalariado, concessão de fundos por liberais milionários e um partido liberal”. De fato. É por isso que o liberalismo é apenas conservadorismo com um verniz racionalista/ positivista.

Liberais prestam um serviço ao estado em que somente eles podem prover. Por todas as queixas deles sobre suas extensões ilícitas que eles concedem, em seus momentos lúcidos, eles admitem que o estado governa muito mais pelo consentimento do que pela coerção — ou seja, nos termos “liberais” da situação atual, o estado não governa nada, ele meramente cumpre termos tácitos ou explícitos de seus contratos. Se parece contraditório dizer que a coerção seja consensual, a contradição está no mundo, não na expressão, e não pode ser adequadamente apresentada exceto pelo discurso dialético. A silogística unidimensional não pode fazer justiça a um mundo amplamente carente de virtude. Se o seu idioma carece de poesia e paradoxo, é desigual à tarefa de contabilizar a atualidade. Caso contrário, algo radicalmente novo é literalmente impronunciável. A lógica escolástica “A= A” criada pela Igreja Católica, ao qual os liberais herdaram, de forma incontestada, vinda dos seguidores de Ayn Rand, é tão constritivamente conservadora quanto a Novilíngua de 1984.

O estado comanda, na maior parte, apenas porque ele comanda o apoio popular. É (e deveria ser) um constrangimento aos liberais de que o estado governa com apoio de massa — incluindo, para todas os efeitos práticos, o deles.

Liberais reforçam atitudes complacentes, desviando insatisfações que são generalizadas (ou que tendem a essa forma) focando em características particulares e funções do estado em que eles são os primeiros a insistir que são dispensáveis! Assim eles transformam revolucionários em reparadores. Crítica construtiva é, de fato, o tipo mais sutil de louvor. Se os liberais conseguissem aliviar o estado de suas atividades exíguas, justamente eles poderiam salvar o próprio estado. A ineptidão do setor público predominante não será corroída pela reverência à autoridade. Quanto mais o estado age, pior fica. Seguramente a razão pela aversão do homem comum ao comunismo está na sua relutância em ver toda a economia funcionar como o correio. O estado tenta transformar seus soldados e policiais em objetos de veneração e respeito, mas os uniformes perdem muito da sua mística quando você os vê sendo usados por guardas florestais e coletores de lixo.

Os ideais e as instituições de autoridade tendem a se agrupar juntos, tanto subjetivamente quanto objetivamente. Você pode se lembrar da observação de Edward Gibbon acerca da aliança eterna do Trono e do Altar. Descontentamento gerado de dogmas recebidos tem uma tendência a se espalhar. Se há qualquer futuro para a liberdade, ela depende disso. A menos que e até que a alienação se reconheça, todas as armas que os liberais estimam serão inúteis contra o estado.

Você pode contestar de que o que eu disse possa ser aplicado à maioria minarquista dos liberais, mas não aos supostos auto-intitulados anarquistas dentre eles. Nem tanto. Para mim um anarquista de direita é só um minarquista que aboliria o estado para a sua própria satisfação chamando-o de qualquer outra coisa. Mas esta briga familiar incestuosa não é assunto meu. Ambos os lados apelam para a parcial ou completa privatização das funções estatais mas nenhum questiona as próprias funções. Eles não denunciam o que o estado faz, eles apenas se opõem sobre quem está fazendo isso. É por isso que as pessoas mais vitimadas pelo estado mostram o menor interesse no liberalismo. Aqueles que recebem a ponta final da coerção não tergiversam sobre as credenciais dos que coagem. Se você não pode ou não quer pagar você não se importa muito se sua privação é chamada de furto, taxação, restituição ou aluguel. Se você gosta de controlar o seu próprio tempo você distingue emprego da escravidão somente em grau e duração. Uma ideologia que supera todas as outras (com a possível exceção do marxismo) em sua exaltação da ética do trabalho só pode ser um freio às orientações anti-autoritárias, mesmo se isso funcione em meio ao caos.

Meu segundo argumento, relacionado ao primeiro, é de que a fobia liberal em relação ao estado reflete e reproduz um profundo equívoco das forças operacionais que fazem o controle social no mundo moderno. Se — e isso é um grande “se”, especialmente onde os liberais burgueses estão interessados — o que você quer é maximizar a autonomia individual, então está muito claro de que o estado é o menor fenômeno que se encontra no seu caminho.

Imagine que você seja um antropologista marciano especializado em estudos terrenos e equipado com o que há de mais moderno em telescópio e equipamentos de vídeo. Você ainda não decifrou qualquer linguagem terrena e assim você só pode gravar o que os terráqueos fazem, não os equívocos deles compartilhados sobre o que eles estão fazendo e por quê. No entanto, você pode medir de modo grosseiro quando eles estiverem fazendo o que eles quiserem e quando eles estiverem fazendo alguma outra coisa. Sua primeira descoberta importante é que terráqueos dedicam quase todo o seu tempo a atividades indesejáveis. A única exceção importante é um número cada vez menor de grupos de caçadores-coletores não perturbados por governos, igrejas e escolas, que dedicam cerca de quatro horas por dia a atividades de subsistência que se assemelham muito a atividades de lazer das classes privilegiadas em países capitalistas industriais do qual a pessoa fica na dúvida se descreve o que eles fazem como sendo trabalho ou lazer. Mas o estado e o mercado estão erradicando estes obstáculos e você se concentra adequadamente nos poucos sistemas mundiais inteiramente inclusivos de que, apesar de todos os antagonismos internos evidentes como resumidos em guerra, é praticamente o mesmo em qualquer lugar. Ademais, você observa que o jovem terreno é quase que totalmente sujeito às imposições da família e da escola, às vezes apoiado pela igreja e ocasionalmente pelo estado. Os adultos geralmente se reúnem em família também, mas o local onde eles passam a maior parte do tempo e se submetem ao controle mais forte é no trabalho. Por isso, sem mesmo entrar na questão do preceito definitivo da economia mundial dentro de limites estreitos da atividade produtiva de todos, é evidente que a fonte do maior aprisionamento direto experimentado pelo adulto comum não é o estado mas, sim, a ocupação que o emprega. O teu patrão ou supervisor dá-te mais ordens em uma semana do que a polícia em uma década.

Se olharmos para o mundo sem preconceitos, mas com a vista a maximizar a liberdade, a principal instituição coerciva não é o estado, mas o trabalho. Liberais, que de forma séria apelam pela abolição do estado, não obstante, olham as atitudes anti-trabalho com horror. A ideia de abolir o trabalho é, naturalmente, uma afronta para o senso comum. Mas a ideia de abolir o estado também é. Se houvesse um referendo entre os liberais que apresentasse como opções a abolição do trabalho com a retenção do estado, ou a abolição do estado com a retenção do trabalho alguém duvidaria do resultado?

Liberais estão em um raciocínio linear e análise quantitativa. Se eles aplicassem estes métodos para testar suas próprias prescrições, eles ficariam em choque. Esse é o ponto do meu experimento de pensamento marciano. Isso não quer dizer que o estado não seja tão repugnante como os liberais dizem que é. Mas sugere que o estado é importante, não tanto pelo aprisionamento direto que ele inflige sobre condenados e conscritos, por exemplo, quanto ao apoio indireto de empregadores que regimentam empregados, comerciantes que prendem ladrões e pais que tratam de forma paternalista os filhos. Nestas salas de aula, a lição de submissão é aprendida. Claro que sempre existe algumas aberrações como anarco-capitalistas ou anarquistas católicos, mas são somente exceções da regra.

Ao contrário de questões secundárias como desemprego, sindicatos e leis de salário mínimo, o assunto do próprio trabalho é quase que inteiramente ausente na literatura liberal. A maior parte do pouco que existe consiste de seguidores de Ayn Rand verbalizando contra parasitas, dificilmente distinguível da injúria infligida sobre os dissidentes pela imprensa soviética, e de escolas dominicais declarando trivialidades de que não existe almoço grátis — isso vindo de ricos poderosos que habilmente se aproveitaram de tudo deles. Em 1980 uma rara exceção apareceu em uma revisão de livro publicada na revista Libertarian Review pelo professor John Hospers, o experiente conselheiro do Partido Libertariano que abandonou o colégio eleitoral em 1972. Foi uma defesa vigorosa do trabalho por um professor universitário que não precisava fazer nada. Para demonstrar que seus argumentos eram completamente conservadores, basta mostrar que eles concordaram em todos os pontos essenciais com o marxismo-leninismo.

Hospers achou que poderia justificar o trabalho assalariado, a disciplina de fábrica e a gestão hierárquica observando que elas são impostas em regimes leninistas assim como no capitalismo. Ele aceitaria o mesmo argumento para a necessidade de leis repressivas de sexo e drogas? Assim como outros liberais, Hospers é inquieto — daí sua perseguição gratuita contra grupos de esquerda — porque o liberalismo e o leninismo são tão diferentes como Coca-cola e Pepsi quando se trata de consagrar a sociedade de classes e a fonte deste poder, o trabalho. Somente no sólido fundamento do fascismo de fábrica e da oligarquia de escritório os liberais e leninistas ousam debater questões triviais que os dividem. Lance nas correntes populares os conservadores, que reconhecem o mesmo, e chegamos num verdadeiro trilateralismo da ideologia pró-trabalho temperado à gosto.

Hospers, quem nunca teve que receber ordens, não vê nada de degradante em receber ordens de chefes, pelo “de que outra forma uma fábrica de larga escala poderia ser organizada?”. Em outras palavras, “querer abolir a autoridade na indústria em larga escala é equivalente a querer abolir a própria indústria”. Hospers novamente? Não, Frederick Engels! Marx concordou: “Vá e conduza uma das fábricas de Barcelona sem direção, isto é, sem autoridade!” (O que é precisamente o que os operários catalães fizeram em 1936, enquanto os líderes anarco-sindicalistas deles temporizaram e cortaram acordos com o governo). “Alguém”, diz Hospers, “tem que tomar decisões e” — veja só que coisa — “alguém mais tem que implementá-las”. Por quê? Seu precursor Lenin igualmente endossou os “poderes ditatoriais individuais” para assegurar a “absoluta e estrita unidade da vontade”. “Mas como se pode garantir a estrita unidade de vontade?” “Por milhares subordinando suas vontades para a vontade de um”. O que é necessário fazer o industrialismo funcionar é “a disciplina de ferro no trabalho, com obediência inquestionável para a vontade de uma única pessoa, o líder soviético, durante o trabalho”. Arbeit macht frei!

Algumas pessoas dão ordens e outras as obedecem: esta é a essência da servidão. De fato, como Hospers presunçosamente observa, “pelo menos se pode mudar de emprego”, mas você não pode evitar de ter um emprego — assim como sob o estatismo alguém, pelo menos, pode-se mudar de nacionalidade mas você não pode evitar a sujeição a um ou outro estado-nação. No entanto, liberdade significa mais do que o direito de mudar de mestres.

Hospers e outros liberais estão errados em supor, com o industrialista de Manchester, Engels, de que a tecnologia impõe sua divisão de trabalho “independente de organização social”. Ao contrário, a fábrica é um instrumento de controle social, o mais eficiente já imaginado para impor o abismo de classe entre os poucos que “tomam decisões” e os muitos que “os implementam”. Tecnologia industrial é muito mais o produto do que a fonte do totalitarismo no local de trabalho. Por isso a revolta contra o trabalho — refletida no absenteísmo, sabotagem, falso volume de negócio, desvio, greves selvagens e na demora de executar tarefas — tem uma promessa muito mais libertadora do que maquinações de políticos e propagandistas “libertários”.

A maior parte do trabalho serve aos propósitos predatórios de comércio e coerção e pode ser abolida de forma definitiva. O resto pode ser automatizado e/ ou transformado — por especialistas, quer dizer, os trabalhadores que atuam nisso — em passatempos criativos e divertidos cuja variedade e convívio fará gerar incentivos extrínsecos como a igualmente obsoleta recompensa capitalista e a punição comunista. Na esperançosa revolução meta-industrial iminente, comunistas libertários revoltados contra o trabalho irão acertar contas com “liberais” e “comunistas” que trabalham contra a revolta. E então nós poderemos ir ao grande encontro!

Mesmo se você acha que tudo o que eu disse sobre o trabalho, como a possibilidade de sua abolição, seja um absurdo visionário, as implicações de anti-liberdade de suas prevalências ainda seriam válidas. O tempo de sua vida é a única mercadoria que você pode vender, mas nunca comprar de volta. Murray Rothbard acha que igualitarismo é uma revolta contra a natureza, mas o seu dia é de 24 horas, assim como de todo mundo. Se você passa a maior parte de sua vida levando ordens ou puxando saco, se você fica habituado à hierarquia, você se tornará passivo-agressivo, sado-masoquista, servil e estupidificado e você carregará este fardo em todo o aspecto do equilíbrio de sua vida. Incapaz de viver uma vida de liberdade, você se contentará por uma de suas representações ideológicas, como o liberalismo. Você não pode tratar valores como trabalhadores, contratar e demiti-los como quiser e atribuir a cada um um lugar numa divisão de trabalho imposta. O gosto pela liberdade e prazer não pode ser compartimentado.

Liberais se queixam de que o estado é parasitário, uma excrescência na sociedade. Eles pensam que é como um tumor que você poderia cortá-lo fora, deixando o paciente assim como ele era, só que mais saudável. Eles foram iludidos por suas próprias metáforas. Assim como o mercado, o estado é uma atividade e não uma entidade. A única forma de abolir o estado é mudar o modo de vida que faz parte dele. Esse modo de vida, se você chama isso de vida, gira em torno do trabalho e se leva pela burocracia, moralismo, educação, dinheiro e entre outros. Liberais são conservadores porque eles declaradamente querem manter a maior parte desta bagunça e então, inconscientemente, perpetuar o resto da algazarra. Mas eles são maus conservadores porque eles esqueceram a realidade da interconexão institucional e ideológica, que foi a percepção original dos conservadores históricos. Totalmente fora de contacto com as verdadeiras correntes de resistência contemporânea, eles denunciam oposição prática ao sistema como “niilismo”, “ludismo” e outras palavras bonitas que eles não entendem. Uma olhada no mundo confirma que o capitalismo utópico deles simplesmente não pode competir com o estado. Com inimigos como liberais, o estado não precisa de amigos.

Traduzido do inglês por Rodrigo Viana. Para ler o texto original clique aqui.


Robert Charles Black Jr., mais conhecido como Bob Black, é advogado, mestre em Jurisprudência e Política Social, Justiça Criminal e Lei Criminal, ensaísta e autor de diversos livros entre eles The Abolition of Work and Other Essays. É uma das personalidades mais marcantes do "Anarquismo pós-esquerdista".

quarta-feira, 18 de março de 2015

Pela destruição do socialismo científico



Por Distribuidora Ex Nihilo

Façamos um chamado para a destruição do socialismo científico, dentro das esferas que tem como fim ou objetivo a conquista da emancipação de todas as espécies, com a necessária abolição do estado-capital que nos relega à mera mercadoria ou mão de obra; porque a transformação da instituição estatal que pretende o socialismo científico como ramificações e sub-ramificações relatadas não busca a abolição das relações de autoridade, dominação e poder em que sustenta a existência do estado-capital. Isto é assim porque esta transformação é a aceitação, pela lógica, da autoridade, dominação e poder que exerce o estado, isto é, legitima a existência e suas respectivas práticas entrando no limite feito pelo estado-capital, ao qual é dado pela democracia. O que significa que tendo uma abordagem representacionista ou dirigista, de onde as consciências reformistas relegam suas vidas a iluminadas figuras que estão acima delas, praticando, por consequência, uma relação vertical dada pela hierarquização das relações como também tendo uma abordagem autoritária.
Uma ideologia que pretende a abolição do estado-capital não pode entrar naquilo que que é servido o mesmo para perpetuar, bem como consolidar sua existência. É assim porque os partidos políticos ao serem estritamente burgueses, reproduzem as relações de poder que sustentam as democracia liberais como qualquer outro regime, bem como conceder a validade necessária para que esta respectiva instituição se veja fortalecida com o passar do tempo e com a ascensão da identificação das democracias liberais com a liberdade. Esta posição colaboracionista dada pela resignação dos socialistas científicos deve ser rejeitada e destruída, já que eles buscam a tomada do poder para fortalecer ainda mais, se possível, as instituições estatais, perpetuar a existência da autoridade e da dominação, algo completamente antagônico com os movimentos anti-autoritários que buscam e lutam pela libertação total através da abolição do estado-capital e suas respectivas relações econômicas, políticas e sociais.

Não se pode identificar o socialismo científico com o movimento anti-autoritário libertário, não existe semelhança alguma entre ambos. Enquanto uns fortalecem a existência do estado-capital, outros buscam romper com qualquer raiz que reproduza as relações de dominação e autoridade dadas por ele mesmo. Façamos este chamado para a destruição do socialismo científico como ramificações e sub-ramificações relacionadas porque com a tomada de uma posição colaboracionista dada pelo dirigismo ou representacionismo, ao que legitimam por uma relação de aceitação-submissão, reproduzem as relações de autoridade que pretendemos abolir. Independentemente de que a tomada do poder seja realizada pelo proletariado ou que os meios de produção passem para as mãos do mesmo, a existência da hierarquização da sociedade, da autoridade, da dominação de um sobre o outro, o poder exercido pelo estado-capital e as respectivas instituições repressivas dele não serão abolidas, serão simplesmente reformadas. Dando-lhes um caráter mais socialista e “democrático” para silenciar e atender as exigências das consciências reformistas que vieram a adotar o representacionismo ou dirigismo que sustentam sua servidão salarial e existencial. O fato de que nosso objetivo seja vagamente o mesmo não significa que compartilhamos interesses ou que lutamos pelo mesmo fim ou objetivo. Isto é uma construção falsa já arraigada e espalhada ao longo da história do movimento trabalhista. Falamos de um objetivo vagamente similar porque estes camuflam seu autoritarismo e suas ânsias por poder e dominação sob a transformação da instituição estatal, camuflando a verdadeira realidade com os placebos socialistas frente aos placebos capitalistas que dizem repudiar. 

Nosso objetivo é a libertação total com a destruição da antiga moral que sustenta as sociedades modernas civilizadas. Não buscamos a transformação da sociedade, buscamos sua destruição. De forma que, a partir de suas cinzas ressurja uma sociedade baseada na liberdade, igualdade e solidariedade.

Traduzido por Rodrigo Viana. Para ler o original clique aqui.
 

Ex Nihilo é uma editora e distribuidora de caráter libertária localizada na Espanha para promover o pensamento anarquista.

Veja também:

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Mutualismo: 7 razões para o otimismo



Por Victor L.

O mutualismo ainda é bastante minoritário, porém há motivos para pensar que isso pode deixar de ser assim antes do que venhamos a pensar. O predomínio da ideologia dominante tem rachaduras grandes e podemos tirar vantagens se soubermos bem quais são nossos pontos fortes. Aqui vão 7 motivos para ser otimista:

  1. O mutualismo tem uma resposta sólida para 4 das questões que mais preocupam as pessoas hoje em dia: o desemprego, a desigualdade, a corrupção política e o poder das empresas multinacionais. Mesmo que, em princípio, não temos soluções (por exemplo, os despejos), podemos criá-los para este fim, sem contradizer nossa força de ideias.

  2. Estamos livres das inimizades históricas e simbólicas que muitas vezes obstruem o debate político fundamentado. Não somos comunistas e nem conservadores, nacionalistas centrais e nem regionais. Em vez disso, a princípio, PODEMOS ter algumas pessoas próximas do mutualismo.

  3. Em relação ao ponto anterior, criticar com a mesma rigorosidade os EUA e a Venezuela demonstra credibilidade e, ao mesmo tempo, produz a sensação autêntica de que nossas ideias são novas. Quando essa crítica combina elementos tão diversos como Mises, Chomsky ou Orwell, a percepção do mutualismo é imbatível. As pessoas se sentem mais confortáveis com ideias que, em vez de fugir da luta, tomam o melhor de diferentes tendências sem abandonar sua essência.

  4. O mutualismo se defende bem frente a especialistas de qualquer ciência social. Enquanto os comunistas são cautelosos frente aos economistas, podemos nos gabar de sermos sólidos em economia e combativos com o capitalismo ao mesmo tempo. Em outras palavras, temos superado um complexo histórico da esquerda.

  5. Entre os estudantes, o mutualismo proporciona uma alternativa educacional brutalmente radical e plausível em tempos. Ken Robinson (educação) e Kevin Carson (negócios), no fundo, falam da mesma ideia em âmbitos diferentes. Todas as pessoas que já passaram pelo sistema público de ensino é um mutualista em potencial.

  6. Conservadorismo, comunismo e liberalismo vulgar exigem sacrifícios especiais; o mutualismo não. Quando não se precisa construir um “novo homem”, as pessoas percebem que não tem por que abandonar sua individualidade e se sentem mais confortáveis com as tuas ideias.

  7. Por último, os mutualistas medianos sabem mais sobre as demais ideologias do que estes sabem sobre nós. É natural: temos que nos esforçarmos mais para testar nossas ideias com as ideias dominantes, enquanto as pessoas comuns ainda ignoram que exista algo chamado mutualismo. Isso nos dá uma vantagem esmagadora em qualquer debate.
Minha impressão pessoal é que quando as pessoas da esquerda não doutrinária se submetem aos argumentos do mutualismo durante certo tempo e sobre vários temas, terminam próximas de nossas ideias. Mas para isso devemos nos apresentar como somos, independente de qualquer outra ideologia e sem complexos.

Traduzido por Rodrigo Viana. Para ler o original em espanhol clique aqui.


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Um pouco da história do feminismo libertário…



Publicado originalmente no blog Gritos Libertários

Muitas das anarquistas não se consideravam feministas por acreditarem que esse termo designava as mulheres que lutavam pelo voto. Porém elas são consideradas feministas por suas preocupações com a emancipação das mulheres, que tem profunda relação com as ideias libertárias do anarquismo, já que este busca a emancipação humana. Desse modo o anarquismo engloba o feminismo, porém os termos “anarcofeminismo” ou “feminismo libertário” passaram a ser usados para dar mais destaque ao campo de atuação que se trata.

Feminismo libertário no Brasil
Maria Lacerda de Moura

O feminismo anarquista tem destaque no Brasil do começo do século XX. Nessa época muitas mulheres atuaram politicamente, em greves pelo aumento de salário, redução da jornada de trabalho, respeito no trato a elas e às crianças e em solidariedade a seus companheiros. Vale lembrar que nessa época, diferentemente de hoje em dia, trabalhadores de diferentes categorias frequentemente entravam em greve em solidariedade a uma outra categoria. Assim, por exemplo, quando os ferroviários paravam, os padeiros, sapateiros e outros também paravam. Foi por esse tipo de organização que a Greve Geral de 1917 foi possível no Brasil.

Uma das militantes brasileiras de mais destaque da época foi Maria Lacerda de Moura. Ela foi professora, conferencista, jornalista, poetisa e escreveu vários livros que tinham como objetivo passar ideias sobre emancipação humana, questionando o papel da escola e da educação, da religião, do Estado, o fascismo, o militarismo e falando sobre controle da natalidade. Ajudou a fundar a “Federação Internacional Feminina” e o “Comitê Feminino Contra a Guerra”, nos anos 20, que tinham como objetivo articular as mulheres de São Paulo e Santos para além da luta pelo voto, articulada por outras feministas da época.

No caso da Federação Internacional Feminina alguns pontos de discussão eram: “assistência, sistemas coercitivos, trabalhos domésticos e trabalho industrial, seduções, jogo, infância delinquente, investigação à paternidade, júri, direitos civis e políticos da mulher, tráfico de mulheres, coeducação, casamento, (…) divórcio, salário, os crimes da maternidade fora da lei, eugenia, proteção aos animais etc”.

As feministas liberais da época criticavam as anarquistas por considerá-las muito radicais, e as últimas criticavam as primeiras alegando que sua luta era pouco transformadora, limitada à esfera pública burguesa e preservadora das relações hierarquizadas na esfera privada. Um exemplo disso é essa crítica feita por Isabel Cerruti, no jornal “A Plebe” em 1920:

“A 'Revista Feminina' em seu programa propõe-se a propugnar pela emancipação da mulher conseguindo para ela o direito de empenhar-se em lutas eleitorais. (…) Como se a emancipação da mulher se resumisse em tão pouco…
O programa anarquista é mais vasto neste terreno; é vastíssimo: quer fazer compreender à mulher na sua inteira concepção, o papel grandioso que ela deve desempenhar, como factora histórica, para a sua inteira integralização na vida social (…).”

Outras militantes conhecidas são Maria Valverde e Sônia Oitica (filha do militante anarquista José Oiticica), que por volta dos anos 30 e 40 atuaram no teatro libertário e eram ligadas aos Centros de Cultura Social, de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde se discutia temas como moral sexual e sexualidade.

Uma crítica feita pelas feministas anarquistas é que os partidos políticos de esquerda da época diluíam a causa das mulheres na causa do partido, pois estes alegavam que elas deveriam se empenhar na luta pela revolução através do partido, relegando a causa feminista à questão da opressão de classe e criticando os espaços específicos das mulheres, ou seja, não reconhecendo uma opressão específica às mulheres, mas alegando que todos os que não são os detentores dos meios de produção são oprimidos pelo capitalismo (como se isso se desse da mesma forma para todos). Assim, para as anarquistas, a divisão das mulheres em partidos enfraqueceu a luta pela emancipação da mulher.

Feminismo libertário em outros países
Emma Goldman em Londres, 1924

Nos Estados Unidos a figura de Emma Goldman se destaca. A militante nasceu em 1869 na Lituânia, mas se mudou para os EUA em 1885 (com 15 anos), fugindo de um casamento arranjado por seu pai. Lá teve contato com as greves pela jornada de 8 horas de trabalho, o que resultou nas mortes de muitos manifestantes – situação que ficou conhecida como caso dos “Mártires de Chicago”.

Sua militância tratava de temas como o controle de natalidade e o amor livre, militarismo e patriotismo como ameaças à liberdade. Apesar do início da sua militância ter tido mais contato com a ideologia de Bakunin, que utilizava a violência como meio para a revolução, no decorrer de sua vida e principalmente após se encontrar com Kropotkin Emma passou a ter ideias humanitaristas. Ela escrevia a revista “Mother Earth” e teve inúmeros relacionamentos, muitos deles com homens bem mais jovens, causando escândalo para a sociedade da época.

Em 1917 em uma manifestação contra o alistamento para a Primeira Guerra Mundial Emma foi presa acusada de conspiração. Ela foi deportada para a Rússia e conheceu Lênin, que havia executado e encarcerado anarquistas e outros dissidentes, além deste último alegar que a liberdade de expressão era um conceito burguês (liberdade esta tão valorizada por Goldman). Isso fez com que a anarquista escrevesse o livro “Minha desilusão com a Rússia”. A partir de então ela mora em vários países diferentes, morrendo no Canadá em 1940. Suas cinzas foram para o Waldheim Cemetery, ao lado dos mártires de Chicago.

Militantes do grupo Mujeres Libres

No caso da Espanha, durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), havia a milícia das Mujeres Libres, que atuavam ao lado da CNT-FAI (Confereración Nacional del Trabajo e Federación Anarquista Ibérica). O grupo foi fundado por Apolonia de Castro, Felisa de Castro, Maruja Boadas, María Cerdán, Nicolasa Gutiérrez, Soledad Estorach, Elodia Pou, Conchita Liaño, dentre outras. Durante a guerra o aborto foi legalizado na Catalunha, o grupo atuou pela educação das mulheres por uma maternidade consciente e propunha que elas fossem agentes da revolução para a construção de uma nova sociedade.

Havia a revista “Mujeres Libres”, editada e escrita exclusivamente por mulheres e que se dirigia a mulheres da classe trabalhadora com a intenção de atraí-las para a causa libertária. Falavam de causas como o anticlericalismo (alegando que a religião usava as mulheres como guardiãs da ordem social e moral tradicional), prostituição, o direito ao prazer sexual e o amor livre, alegando que a monogamia se relacionava estreitamente ao capitalismo e à propriedade privada.

O grupo propunha uma solução coletiva para a emancipação feminina, conscientização e educação. Assim, na Espanha predominou um feminismo que não buscava direitos políticos, mas que fazia reivindicações trabalhistas e educativas, vendo essa luta com uma perspectiva de classe e relacionada ao anarcossindicalismo. A cultura e a educação eram vistas como fundamentais à emancipação humana.

Referências:

Edgar Rodrigues, “Mulheres e Anarquia”. Editora Achiamé.
Emma Goldman, “O indivíduo, a sociedade e o Estado, e outros ensaios”. Editora Hedra.
Margareth Rago, “Anarquismo e feminismo no Brasil / A audácia de sonhar”. Editora Achiamé.
Maria Lacerda de Moura, “Serviço obrigatório para mulher? Recuso-me! Denuncio! – e outros escritos…”. Editora Opúsculo Libertário.
Artigo “Amando de olhos abertos” sobre Emma Goldman.
Artigo sobre as “Mujeres Libres”.
Filme “Libertárias”.
Grupo “Mujeres Creando”, da Bolívia



Grito Libertário é um blog com temas sobre anarcafeminismo, veganismo e assuntos do cotidiano sob esta perspectiva.

Veja também:

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Algumas notas rápidas sobre o que é e o que não é do Socialismo Libertário



Por Jakob Pettersson “Sushigoat”

Parece haver muita confusão sobre o que o socialismo libertário é, então eu decidi escrever abaixo algumas notas:

O socialismo libertário é anti-estatista, mas não necessariamente apátrida.

Essa é uma distinção importante. Embora a tendência comum de libertários socialistas seja ser a favor da completa apatridia, pode não ser necessariamente o caso. Comunistas de conselho, Comunalistas, Comunistas de esquerda, socialistas corporativos, todos deixam espaço para o governo se eles considerarem isso necessário. Parece haver uma tema comum de democracia participativa e governança face a face, ou da diminuição da ênfase da conquista do poder político. O governo é para ser mantido tão horizontal (e para alguns, local) quanto possível. O que é comum é também uma ênfase da mudança social e econômica FORA da máquina política, independente se a máquina política irá definhar ou permanecer de uma forma ou outra.

Controle do Trabalhador x da Comunidade

Não está sob acordo, dentro do movimento libertário socialista, se deve haver ou não o “controle dos tralhadores sobre os meios de produção”. Alguns acreditam que deve sim haver o “controle da comunidade” sobre o que tem sido produzido. Essa é uma importante distinção, por motivos óbvios. Mutualistas geralmente argumentam que os trabalhadores devem possuir suas empresas cooperativamente ou por meio do emprego autônomo, enquanto Comunalistas, como Murray Bookchin, argumentam que os consumidores devem ser os governadores do produto social, ao invés dos trabalhadores.

Comunismo não significa “propriedade coletiva”

Significa, como declarou Louis Blanc, “de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”. Isso quer dizer que a ênfase é sobre os direitos de acesso de fato, ao invés de títulos legais formais. Em sociedades igualitárias primitivas, os porcos, vacas, colheitas, plantas vizinhas e etc ERAM legitimamente considerados das próprias pessoas. Você não podia simplesmente pegar o gado ou a colheita das pessoas indiscriminadamente, exceto se você pedisse ou insinuasse em querer algo primeiro. O costume social era apenas dar se lhe pedissem para dar, sabendo que, mais cedo ou mais tarde, o outro agente retribuiria. Apesar da propriedade coletiva ou comum poder desempenhar um importante papel numa sociedade comunista, havia espaço para a propriedade individual, além de apenas a distinção de “propriedade pessoal” normal.

O socialismo libertário não é inerentemente anti-mercado

Apesar da maioria das vertentes libertárias socialistas enfatizar a cooperação, dizendo que o socialismo libertário é anti-mercado, isso é ser grandemente ignorante sobre a história do movimento. Proudhon e Bakunin, os padrinhos do movimento, ambos acreditavam em um mercado, baseado no valor-trabalho. Tem havido muitas ideias sobre sistemas de escambo local, cooperativas de crédito e mercados comunais [N. T.: mercado comunal é o sistema de mercado baseado em trocas entre comunidades, buscando adquirir bens ou serviços produzidos por outra comunidade. Podendo ser trocado por alguma certificação remunerativa, como cédulas de trabalho (do inglês, labour notes)]. Assim como nem todos os socialistas autoritários são anti-mercado, também nem todos os libertários socialistas são anti-mercado.

Tradução por Rodrigo Viana. Para ler o artigo original clique aqui.


Sushigoat é um blog que aborda assuntos corriqueiros, bem como anarquismo.

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terça-feira, 6 de maio de 2014

O que anarquismo realmente significa



Por Alex Prichard


Protestadores nunca são um grupo homogêneo, mas aqueles que protestaram sob a bandeira de anti-cortes na semana passada estavam unidos no ponto de vista de que a mercantilização do ensino superior deveria ser combatida. No entanto, de forma típica, a destruição de propriedade magicamente transformou um subconjunto considerável em “anarquistas” e deu um sinal verde para a rejeição geral de seus interesses.

É certamente verdade que anarquistas estavam entre os protestadores.

O que é enganador é a suposição da mídia de que existe um relacionamento generalizado entre anarquismo e violência. Anarquismo é uma tradição muito mais rica e no ponto de vista do frenesi da mídia, vale a pena refletir sobre o que significa.

A aliança dos partidos britânicos Conservador e Democratas Liberal está procurando reverter o estado. Anarquistas querem isso também, mas o governo está procurando reverter o estado e deixar as empresas assumirem a negligencia, desse modo trazer um “livre mercado” fictício em cada último recesso de nossas vidas. Isso é onde o desacordo vive. Anarquistas defendem alternativas práticas tanto para essa política neoliberal extremamente cruel e implacável quanto para o velho socialismo de estado do partido Trabalhista.

Gerar um mercado na educação beneficiará aqueles que querem fazer dinheiro com isso. Sobretudo, isso irá incluir universidades e empresas dirigidas ao lucro. Educação pela proposta de desenvolver um senso de nosso potencial pessoal e social está ausente, enquanto educação para um cheque de pagamento gordo está dentro: o governo sai fora do exercício de seus papéis de balanço e amontoa os custos aos estudantes. Os estudantes estão, na realidade, sendo convidados a pagar universidades acima de 40 mil libras para uma entrevista de emprego com um recrutador graduado. E se o seu “investimento” no seu futuro não liquidar, o sistema irá alegar como não tendo culpa: a responsabilidade é dos estudantes. Para assumir que os interesses das empresas e da sociedade são os mesmo é utópico.

Porém anarquistas não acreditam que o socialismo de estado é a única alternativa para as desigualdades não democráticas produzidas pelo neoliberalismo. Socializar propriedade não tem de significar nacionalizá-la – que simplesmente iria substituir um conjunto de patrões por outro. E quanto a genuína propriedade coletiva de trabalhadores de indústrias e serviços; e quanto a universidades democraticamente gerenciadas por acadêmicos, estudantes e quadro de funcionário de apoio ao invés de, em grande parte, gerentes e tecnocratas em excesso?

De modo mais amplo, nós não poderíamos radicalizar o modelo cooperativo e ter todas empresas democraticamente sob propriedade e gerenciada por gerentes e trabalhadores? Não poderíamos expandir e federar cooperativas mútuas e coletivas, de trabalhadores? O movimento em prol da posse de torcedores de clubes de futebol é uma indicação a mais de que esses tipos de alternativas funcionam. O desafio é pensar através de seu potencial e o anarquismo fornece tal quadro. Mas como tudo isso difere da “grande sociedade”, você poderia perguntar? Em suma, os partidários do Partido Conservador estão tentando mutualizar o estado assistencialista em preparação para privatizá-lo. Indivíduos serão responsabilizados, mas será dado nenhum poder. Associações de caridade, voluntária e tudo mais serão permitidas organizarem um festival beneficente, mas as estruturas neoliberais do poder não serão contestadas. Não faria mais sentido começar por mutualizar os bancos?

Tal como está, políticos conseguiram proteger os bancos enquanto todos os outros fazem um grande esforço. Como os cortes comprimem o pobre e o rico não fica mais pobre, vai ficar claro a quem os interesses estão sendo servidos. Como a militância de trabalhadores cresce e os protestos se tornam mais frequentes, a demanda por estados cada vez mais fortes e autoritários se tornarão mais barulhento, as liberdades civis serão reduzidas (de novo) e aqueles no topo da árvore nos dirão que eles tem algum direito especial.

Democracias liberais modernas colhem a opinião de alguns adultos de idade de votação uma vez a cada cinco anos como uma solução para a elite pré-determinada barganhar. Quem votou para a coalizão partidária Conservadora- Democratas Liberal? Quando os governos que são votados, em seguida, rotineiramente ignoram a vontade do povo, haver que além de guerras, custos ou minúcias de política, vemos a democracia representativa moderna devido a farsa que é. Permitir protestos somente na condição de que nunca irá apresentar uma contestação ao governo é parte da mesma farsa. Porque essa falsa democracia não funciona e os interesses dos anarquistas nunca poderiam ser representados por um partido político, ação direta é a tática de escolha. E ação direta é parte do processo de criar democracia direta. Produz resultados por aumentar o perfil de motivos e muitas vezes travando práticas que muitos contestam.

Bem como uma tática, ação direta é também um meio para auto-empoderamento. É um componente da sociedade que nós esperamos criar, onde as pessoas tomam controle de suas vidas por suas próprias mãos e confrontam as causas raiz de injustiças diretamente, sem representantes. Isso, às vezes, inclui dano de propriedade, mas anarquistas tomam seriamente as noções de liberdade e igualdade: de que pessoas são capazes de falar e agir por elas mesmas e se tornam até mesmo mais capazes através da prática ao invés da representação.

A ameaça a um mundo viável não vem dos anarquistas, mas dos governos e do capitalismo. Antes da crise atual ser usada como uma fachada para nos levar ainda mais fundo em um pesadelo neoliberal, vamos reconsiderar as alternativas.

Traduzido por Rodrigo Viana. Para ler o artigo original clique aqui.


Alex Prichard é doutor em 'Relações políticas e internacional e estudos europeu' pela universidade de Loughborough. Ele é pesquisador e integra o grupo Anarchist Studies Network no Reino Unido.