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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Mutualismo: 7 razões para o otimismo



Por Victor L.

O mutualismo ainda é bastante minoritário, porém há motivos para pensar que isso pode deixar de ser assim antes do que venhamos a pensar. O predomínio da ideologia dominante tem rachaduras grandes e podemos tirar vantagens se soubermos bem quais são nossos pontos fortes. Aqui vão 7 motivos para ser otimista:

  1. O mutualismo tem uma resposta sólida para 4 das questões que mais preocupam as pessoas hoje em dia: o desemprego, a desigualdade, a corrupção política e o poder das empresas multinacionais. Mesmo que, em princípio, não temos soluções (por exemplo, os despejos), podemos criá-los para este fim, sem contradizer nossa força de ideias.

  2. Estamos livres das inimizades históricas e simbólicas que muitas vezes obstruem o debate político fundamentado. Não somos comunistas e nem conservadores, nacionalistas centrais e nem regionais. Em vez disso, a princípio, PODEMOS ter algumas pessoas próximas do mutualismo.

  3. Em relação ao ponto anterior, criticar com a mesma rigorosidade os EUA e a Venezuela demonstra credibilidade e, ao mesmo tempo, produz a sensação autêntica de que nossas ideias são novas. Quando essa crítica combina elementos tão diversos como Mises, Chomsky ou Orwell, a percepção do mutualismo é imbatível. As pessoas se sentem mais confortáveis com ideias que, em vez de fugir da luta, tomam o melhor de diferentes tendências sem abandonar sua essência.

  4. O mutualismo se defende bem frente a especialistas de qualquer ciência social. Enquanto os comunistas são cautelosos frente aos economistas, podemos nos gabar de sermos sólidos em economia e combativos com o capitalismo ao mesmo tempo. Em outras palavras, temos superado um complexo histórico da esquerda.

  5. Entre os estudantes, o mutualismo proporciona uma alternativa educacional brutalmente radical e plausível em tempos. Ken Robinson (educação) e Kevin Carson (negócios), no fundo, falam da mesma ideia em âmbitos diferentes. Todas as pessoas que já passaram pelo sistema público de ensino é um mutualista em potencial.

  6. Conservadorismo, comunismo e liberalismo vulgar exigem sacrifícios especiais; o mutualismo não. Quando não se precisa construir um “novo homem”, as pessoas percebem que não tem por que abandonar sua individualidade e se sentem mais confortáveis com as tuas ideias.

  7. Por último, os mutualistas medianos sabem mais sobre as demais ideologias do que estes sabem sobre nós. É natural: temos que nos esforçarmos mais para testar nossas ideias com as ideias dominantes, enquanto as pessoas comuns ainda ignoram que exista algo chamado mutualismo. Isso nos dá uma vantagem esmagadora em qualquer debate.
Minha impressão pessoal é que quando as pessoas da esquerda não doutrinária se submetem aos argumentos do mutualismo durante certo tempo e sobre vários temas, terminam próximas de nossas ideias. Mas para isso devemos nos apresentar como somos, independente de qualquer outra ideologia e sem complexos.

Traduzido por Rodrigo Viana. Para ler o original em espanhol clique aqui.


terça-feira, 13 de maio de 2014

Hierarquia voluntária?



Por Jakob Pettersson “Sushigoat”

Eu tenho sido bastante hostil a respeito aos anarco-capitalistas aqui, mas eu quero tentar deixar claro um conceito errôneo.

Como um ex- então chamado ”voluntarista”, minha barreira para entrar para o anarquismo social [N. T.: anarquismo social remete à linhagem original do anarquismo, do qual que integra o mutualismo, anarco-sindicalismo e anarco-comunismo] era esse conceito errôneo comum entre as pessoas que acreditam em assuntos como o “princípio da não-agressão (PNA)” e o direito à propriedade de que anarquistas sociais são, de alguma forma, anti-contrato voluntário e de que eles puniriam violentamente pessoas por fazerem tais contratos. Esse ponto de vista se sustenta de forma firmemente segura entre pessoas que se denominam “voluntaristas”, “anarco-capitalistas” e “austro-libertários”, e infelizmente compelido pelos fanáticos vulgares de Chomsky, que pensam que haverá algo como “tributação” em uma sociedade sem estado.

Após um tempo fica irritante ouvir vloggeiros, blogueiros e twitteiros libertários direitistas fazerem alegações tal como “eu aceitaria o anarquismo socialista em uma sociedade sem estado se fosse voluntário”. Eles poderiam também terem dito “eu concordo com o socialismo voluntário se fosse voluntário”. Todo anarquismo social visiona uma sociedade sem agressão. E nenhum anarquista social te impediria, de forma violenta, de empregar pessoas por salários baixos e, uma vez que não existe “governo anarquista”, não haveria que te impedir também. Poderia haver protestos, boicotes organizados e outros coisas, tudo feito sem infringir o PNA. “Você permitiria voluntário x em seu sistema?” parece que cabe ao indivíduo anarquista decidir quais contratos voluntários são feitos, coisa que seria, sabe, um governo.

Mas existe um problema na ideologia do voluntarismo, do “tudo é permitido se eu fiz um contrato consentindo isso”, além do simples fato de que algumas pessoas tem uma desvantagem estrutural no mercado em geral. O problema com a “hierarquia voluntária” é que o mero fato de que não existe um agressor forçando você a concordar não torna isso legítimo.

Vamos dizer que exista uma organização cuja principal atividade é propagar a homofobia. Eles regularmente organizam comícios promovendo ódio e intimidação de pessoas gays. Fomentam os pais a disciplinarem seus filhos por serem gay. Rastreiam pessoas gays e os molestam verbalmente. Intimidam gays ao ponto de suicídio. Organizam e financiam suas atividades completamente voluntária, sem coerção. Você não tem que se juntar, financiar ou gostar do que eles estão fazendo. Qualquer um que muda de ideia sobre homossexualidade pode sair. Será que a capacidade em você não assinar o contrato com eles, ou retirar o consentimento das atividades, legitima o que eles estão fazendo?

Você provavelmente diria não. Você provavelmente diria que tal organização deveria ser combatida. Uma vez que você acredita no princípio de não-agressão, você provavelmente diria que a forma de combater seria organizar boicotes em massa, usar a mídia e a educação, persuasão e contra-organização para combater pelo o que é certo.

Isso é, claro, um exemplo extremo. Nós, anarquistas sociais, vemos o ambiente de trabalho como um local onde a hierarquia social do gerente e gerenciado, pagador de salário e assalariado, empregador e empregado é negativo. Nossa crítica sequer se apoia em uma teoria de valor-trabalho, mesmo que muitos de nós acreditam que ela seja verdade (mesmo Kropotkin rejeitava a teoria do valor-trabalho). Isso cria uma situação onde ambos estão trabalhando contra uns com os outros, porque eles tem tanto motivos diferentes quanto geralmente opostos por estar nessa hierarquia. Como empregadores buscam lucros e empregados buscam salários mais altos, se cria uma tensão negativa. Isso é um problema, correto? Ora, uma vez que ambos concordamos sobre a não-agressão: o que nós, não violentamente, estamos indo fazer sobre isso?

O ponto principal é: sua capacidade de interagir voluntariamente com uma estrutura de poder ilegítima não é uma legitimação dessa estrutura de poder ilegítima.

Nós também criticamos o mercado atual, a mercantilização de virtualmente tudo, os valores culturais transmitem, o culto do comércio e a deificação de objetos, o motivo de lucro. Isso é um problema, talvez não para você, mas para nós. O que fazemos sobre isso? Nem diga “bem, não utilize força para regular o mercado” porque isso é irrelevante e nos leva a lugar nenhum. Uma vez que concordamos sobre a não-agressão, qual é a solução? Isso é o que estamos tentando resolver.

Nós discordamos com alguns assuntos que são voluntários. Nós achamos que eles são negativos à sociedade e queremos fomentar os valores que nós sentimos serem importantes para uma sociedade próspera e humana. E talvez nós devemos ser melhores em persuadi-lo sobre isso. Mas isso é o que queremos e o que esperamos que você queira também.

Outra coisa: alguns anarquistas, inclusive, defendem cessar os títulos de propriedades atuais como parte de uma mudança social maior a partir do capitalismo de estado para uma sociedade socialista libertária. Isto não exige “agredir contra sua propriedade”, mas poderia. Antes que você vá chorar em uma esquina, você deveria pensar sobre isso: os títulos de propriedade destas pessoas são coisas que você apoia? Eles conseguiram essa propriedade numa forma que se adequa nas ideias gerais da apropriação lockeana sem condição? Eu, pessoalmente, duvido *profundamente* disso. As chances são, eles as obtém através do privilégio assegurado pelo governo, através da propriedade intelectual, às vezes tão vulgar quanto o domínio eminente ou roubo direto. Lembre-se, isto não é “livre mercado”.

Traduzido por Rodrigo Viana. Para ler o original clique aqui.


quarta-feira, 5 de março de 2014

Noam Chomsky: fascinado pelo espetáculo bolivariano



Por Alan Furth

Ao discursar nas Nações Unidas em 2006, Hugo Chávez chamou o ex-presidente americano George W. Bush de “diabo”. Chávez acenava com uma cópia do livro de Noam Chomsky O Império Americano – Hegemonia ou Sobrevivência, catapultando a obra à lista de best-sellers do site Amazon.

De sua parte, Chomsky repetidamente afirmou que Chávez conduziu a Venezuela a uma ruptura revolucionária com o passado político do país, especialmente em relação às políticas sociais do estado para os pobres, ecoando o discurso fundamentador chavista da “revolução bolivariana”.

Numa entrevista para o jornal espanhol Diagonal em março de 2006, Chosmky declarou que “pela primeira vez o país está utilizando suas fontes energéticas para seu desenvolvimento [...], em construção, saúde”. No mesmo tom, em 2005 ele escrevia um editorial para o jornal mexicano La Jornada em que dizia que “somente com Chávez a medicina se tornou uma realidade para a maioria dos pobres”.

No mês passado, numa conversa com o economista venezuelano Miguel Ángel Santos, Chomsky repetiu seu argumento: “Por muitos anos a Venezuela foi dominada por elites que [...] extraíram todos os benefícios das riquezas petrolíferas e marginalizaram os pobres. [...] Chávez se insurgiu contra isso”.

Lamentavelmente, Chomsky ignora fatos básicos da história contemporânea da Venezuela. Não há nada de revolucionário no estado assistencial chavista.

Em Revolution as Spectacle, Rafael Uzcátegui, co-editor do jornal venezuelano El Libertario, apresenta vários dados que mostram que até os anos 1980, quando os preços do petróleo começaram uma queda continuada que drenou a capacidade de o estado venezuelano sustentar os gordos subsídios que apaziguavam as massas desde 1958 e que levaram, eventualmente, ao Caracazo (uma onda de protestos em 1989 em que milhares foram mortos pelo exército durante o segundo governo de Carlos Andrés Pérez), as políticas assistenciais eram tão presentes – e às vezes mais efetivas – do que aquelas surgidas no governo Chávez.

Limitemos a nossa análise às duas áreas mencionadas por Chomsky, a habitação e a saúde (Uzcátegui analisa de forma similar uma grande gama de políticas assistenciais).

De acordo com os dados do censo nacional, os programas de habitação reduziram a quantidade de favelas em relação ao total de residências de 37,8% em 1961 para 12,56% em 1990. A penetração da malha elétrica era de 58,16% em 1961 e 76,59% em 1981. O fornecimento de água aumentou de 46,7% de 1961 para 68,74% em 1981.

A administração Chávez construiu cerca de 26.000 residências por ano entre 1999 e 2008. A média da década de 1990 foi de 64.000 por ano.

As clínicas e hospitais populares criados pela famosa Missão Barrio Adentro, um programa que pretensamente proporcionou acesso sem paralelos à saúde básica para os pobres é, atualmente, incapaz de tratar algo mais complexo que um osso quebrado.

Para tratamentos mais críticos, a população precisa depender dos hospitais mais antigos construídos durante a Quarta República, que em 1980 chegaram a ter uma das maiores coberturas da região, com 2,7 leitos para cada 1.000 habitantes, mas hoje em dia caem aos pedaços.

Isso fez com que, entre outras tragédias, as mulheres mais pobres da Venezuela realizassem seus partos em condições sub-humanas durante o período de 1998 a 2008 e a uma taxa de mortes das mães de 16% devido a abortos clandestinos em 2010.

O argumento de Chomsky de que a Venezuela pré-Chávez era dominada por elites que se locupletavam das riquezas petrolíferas do país é verdadeiro, mas irrelevante: a Venezuela atual é dominada por novas elites, chamadas de boliburguesia – ricas e poderosas graças a suas conexões ou participação direta na gerência do estado bolivariano.

Na realidade, a elite chavista é muito mais corrupta, autoritária e inepta que seus predecessores da Quarta República. Se o monopólio do uso da força e da administração da justiça for de fato a característica definidora do estado, a Venezuela atual pode ser descrita como um estado falido: a epidemia de violência do país gerou quase 25.000 assassinatos em 2013, mais de 90% dos quais não foram solucionados.

Hugo Chávez não era um revolucionário. Ele apenas tomou o modelo petroestatista social-democrata que vigorava na Venezuela desde 1958 um novo patamar. Como argumenta Uzcátegui em seu livro, Chávez executou com maestria a arte do espetáculo demagógico como nenhum outro antes dele – um espetáculo que fascinou Noam Chomsky, apesar de toda a sua habilidade analítica e intelectual.

Traduzido por Erick Vasconcelos. Para ler o artigo original clique aqui.


Alan Furth é um minimalista, economista e comentarista político. Ele mantém o blog Musing on Minus.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Quem se apropria do benefício? O livre mercado como comunismo pleno


Por Kevin Carson
Existe uma frase magnífica sobre como o capitalismo funciona no mundo real (eu não estou certo de quem a criou, mas eu associo a Noam Chomsky): “A socialização do risco e do custo, e a privatização do lucro”.
Essa é uma descrição muito interessante sob qual é a função do estado no capitalismo atual, em oposição ao livre mercado. Praticamente tudo que identificamos como problemático em relação ao capitalismo corporativista – a exploração do trabalho, poluição, desperdício e a obsolescência planejada, a devastação ambiental, a extração de recursos naturais – resultam da socialização do custo e do risco e da privatização do lucro.
Por que a revolução cibernética e os grandes aumentos de produtividade oriundos do progresso tecnológico não resultaram em semanas de trabalho de 15 horas, ou no barateamento de muitos itens básicos para a vida? A resposta é que o progresso econômico é mantido como uma fonte de renda e lucro.
O efeito natural da concorrência de mercado livre é, surpreendentemente, o socialismo. Explico: por um curto período, o inovador recebe um grande lucro, como recompensa por ser o pioneiro no mercado. Então, com a adoção da inovação por parte dos concorrentes, a concorrência/competição leva tais lucros a zero e o preço gravita em torno do novo e menor custo de produção tornado possível por essa inovação (aquele preço incluindo, é claro, o custo de manutenção e de amortização dos bens de capital do produtor). Assim, no livre mercado, a redução de custos do trabalho requeridos para produzir qualquer produto iria rapidamente ser socializado na forma de redução dos custos trabalhistas para adquiri-los.
Somente quando o estado cria escassez artificial, direitos de propriedade artificiais e barreiras à competição/concorrência, é possível ao capitalista apropriar alguma parte da redução de custos como renda permanente. O capitalista, sob tais condições, é capaz de optar por preços monopolísticos. Isto é, em vez de ser forçado pela concorrência a precificar seus produtos no custo atual de produção (incluindo sua própria sobrevivência), ela pode estabelecer o preço de acordo à capacidade de pagar do consumidor.
Essa forma de proteção, por meio da “propriedade intelectual”, é a razão pela qual a Nike pode pagar ao dono da “fábrica de suor” (empresas que exploram a mão de obra barata em países subdesenvolvidos) alguns trocados por um par de tênis e então adicionar um “mark-up” de US$ 200. Grande parte do que você paga não se refere aos custos do trabalho e dos materiais, mas sim à marca.
O mesmo se aplica à escassez artificial de terra e capital. Como David Ricardo e Henry George observaram, existe algum ganho de renda oriundo da escassez natural da terra como um bem não reproduzível. Existe considerável discordância entre os Georgistas, defensores do mutualismo de ocupação e uso, e outros libertários sobre se e como recuperar tais rendas advindas da escassez natural. Contudo, a escassez artificial, baseada na proteção e uso da terra livre e não cultivada, ou nos direitos quase feudais de extração de renda dos proprietários legítimos que verdadeiramente cultivam a terra arável, é uma enorme fonte de renda ilegítima – indiscutivelmente a maior fatia da renda total da terra. Não obstante outros passos que possamos defender, os libertários de princípio são todos a favor da abolição dessa escassez artificial e – pelo menos – permitir que a concorrência de mercado pela terra livre diminua o valor da renda da terra ao seu valor de escassez natural.
Da mesma forma, nós favorecemos a abertura da oferta de crédito à concorrência de mercado livre, abolindo as barreiras de entrada à criação de cooperativas de empréstimo, e abolindo as leis de moeda corrente de todos os tipos, de forma que a concorrência de mercado elimine grande parte do juro total sobre a moeda.
Mesmo que demandar a socialização da renda e do lucro pode ser desaprovado pelos capitalistas como “guerra de classes”, eles concordam 100% com a socialização dos custos operacionais. A principal razão pela qual a produção moderna é tão centralizadas e ambas as firmas e as áreas de atuação são tão grandes, é que o estado tem subsidiado a infraestrutura de transporte à custa do público em geral, tornando artificialmente barato o transporte de bens por longas distâncias. Tal sistema torna produtores de grande escala, ineficientes artificialmente competitivos contra produtores de baixa escala nos mercados locais que invadem com a ajuda estatal. É por isso que grandes redes varejistas estão levando os pequenos varejistas locais à falência, usando seus próprios e internalizados “armazéns sobre rodas” em operações de atacado para distribuir bens manufaturas por “fábricas de suor” na China.
A perda de biodiversidade nos últimos 40 anos, o desmatamento, a poluição pelo gás carbônico ocorreram porque o ecossistema como um todo é um depósito de lixo sem dono, em vez de ser propriedade de todos. O estado tipicamente se apropria antecipadamente da “propriedade” de florestas, depósitos minerais, etc. – com frequência em detrimento dos povos indígenas já habitando tais áreas – dando acesso privilegiado a indústrias extrativas que são capazes de minerar os recursos sem internalizar os reais custos envolvidos.
Tão surpreendente quanto possa parecer, existe um forte paralelo entre essa visão de livre mercado de abundância e a visão marxista de comunismo pleno. Carl Menger escreveu sobre os bens econômicos (isto é, bens sujeitos ao calculo econômico devido a sua escassez). Tornando-se bens não-econômicos (isto é, que sua abundância e custo quase zero de produção faria os custos contábeis maior do que os custos de produção, se existissem). Tal posição assemelha-se a uma importante vertente entre os socialistas da cultura livre/código aberto/movimento P2P. Eles consideram o modo de produção comunista praticado pelo Linux e outros desenvolvedores de código fonte aberto como o núcleo de uma nova formação social pós-capitalista, pós-escassez. Assim como a produção capitalista iniciou em pequenas ilhas dentro de uma grande economia feudal, posteriormente se tornando o centro de uma nova e dominante formação social, a produção baseada nos comuns é o centro sobre o qual a economia pós-capitalista irá eventualmente se cristalizar.
E nós, defensores do livre mercado, também somos “comunistas” no que se refere à informação. Nós queremos que os benefícios oriundos do conhecimento e da técnica sejam socializados. A maior porção do lucro sob o atual modelo de capitalismo corporativo está incrustado de rendas advindas diretamente da escassez artificial de conhecimento e técnica.

Numa sociedade onde o desperdício e a obsolescência programada não forem mais subsidiadas, e não existirem mais barreiras à concorrência que socializa todos os benefícios do progresso tecnológico, nós poderíamos provavelmente desfrutar de nossa atual qualidade de vida com uma semana de trabalho de quinze horas. E numa sociedade onde o modelo de produção dominante era profissional, com ferramentas e máquinas CNC básicas (como Piotr Kropotkin antecipou há um século em Fields, Factories and Workshops), a divisão do trabalho e a dicotomia entre o trabalho físico e mental seria muito menos pronunciada.

Como um todo, esses dois resultados da concorrência de livre mercado na socialização do progresso resultariam numa sociedade assemelhando-se não a uma visão anarcocapitalista do mundo dominado pelos irmãos Koch e Halliburton, tanto quanto a visão marxista da sociedade comunista da abundância na qual o individuo pode “fazer uma coisa hoje e outra amanhã, caçando de manhã, pescar na parte da tarde, cuidar do gado no final da tarde, discutir no jantar, assim como eu desejar, sem me tornar um caçador, pescador, pastor ou crítico”.

Tradução de Matheus Pacini e revisão de Adriel Santana