sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Redes de seguridade social vs redes de seguridade anti-social



Por Jakob Pettersson “Sushigoat”

A crença em uma “rede de seguridade social” é geralmente relacionado ao progressismo ou a social-democracia de estilo escandinavo. Então é compreensível que o conceito seja normalmente ligado à uma função estatal e ao conceito de “estado inchado” (muito embora não seja necessariamente assim). O conceito tem sido posto em tentativas e, sob períodos de tempo, tem funcionado (veja a Suécia, o meu país de origem, por exemplo). Contudo, sempre que ocorre a queda inevitável na economia corporativa, a rede de seguridade social (leia-se os pobres) é falsamente responsabilizada, muito embora os culpados geralmente são os capitalistas e o privilégio de monopólio que eles recebem do estado.

Mutualistas, enquanto anarquistas, também acreditam em uma rede de seguridade social. Nós acreditamos que por causa da reciprocidade e progresso, é bom que nós cuidemos daqueles em piores condições na sociedade. Todavia, nossa rede de seguridade social é diferente. Eu tentarei explicar a rede de seguridade social que mutualistas preferem e como ela é diferente e (e preferível) sobre o estado de bem-estar social.

A rede de seguridade social mutualista: Ajuda Mútua

Ajuda Mútua é uma organização ou rede de trabalho em que bens e serviços são trocados voluntária e reciprocamente entre os membros para benefício mútuo. É um sistema de cooperação para atender às necessidades e cuidar de pessoas. Esta forma de organização tem existido por um longo tempo ao qual temos conhecimento, e definitivamente existe hoje em dia. Porém os mutualistas não desejam apenas pequenos números destas organizações. Os mutualistas buscam construir essa forma de organização, rede de trabalho, e associar sobre amplas áreas geográficas por meio da federação, gradualmente substituindo as funções existentes do estado. Após a queda do tíquete-feudalismo de nossos dias, elas serão a pedra angular fundamental da sociedade mútua.

Caridade privilegiada vs solidariedade recíproca

Oscar Wilde, em “A alma do homem sob o socialismo”, apontou o seguinte sobre bem-estar social e caridade:

Eles tentam resolver o problema da pobreza, por exemplo, por manter os pobres ativos; ou no caso de uma escola muito avançada, por entreter os pobres. Mas isso não é uma solução: é um agravamento da dificuldade. O objetivo apropriado é tentar e reconstruir a sociedade em bases dos quais a pobreza será impossível.
(…) É imoral utilizar a propriedade privada afim de aliviar os males horríveis que resultam da instituição da propriedade privada.

Embora ele não fosse um mutualista, nós concordamos com ele de que a caridade não é o objetivo da sociedade, mas a solidariedade. Bem-estar social é privilegiar tentando se justificar por gastar frações do que é saqueado do pobre em manter essas pessoas pobres de morrer. Solidariedade, na forma de organização de ajuda mútua, é um sistema de agentes iguais atuando juntos para promover reciprocidade e mutualidade.

Ademais, o estado é uma organização inerentemente anti-social. Como Mao colocou, é a autoridade política que vem do barril de uma arma. É um emprego para mandatar ou proibir. Quão absurdo é assumir que tal instituição resolveria os problemas da desigualdade? Igualdade social não pode ser mandatado de cima pelo estado porque o estado é uma desigualdade inerente, assim como o anti-racismo não pode ser mandatado por uma “raça superior”. Se nós quisermos a igualdade, nós devemos criar instituições que são iguais. Uma parte central da estratégia política mutualista é: criar redes de estruturas de ajuda mútua livres para gradualmente substituir as tentativas antigas e falhas do status quo para limpar sua própria bagunça.

Livre associação vs dependência forçada

A rede de seguridade social, afim de se manter fiel ao seu nome, deve dar às pessoas o direito de se associarem e desassociarem livremente. Quão “social” é forçar as pessoas a participarem de sua organização? Para que a estrutura permaneça social ela deve também ser voluntária. O estado de bem-estar social não é voluntário, mas a ajuda mútua é. Pode haver muitas redes de ajuda mútua diferentes se sobrepondo, e as pessoas que se sentirem insatisfeitas com uma rede de ajuda mútua em particular pode mudar para aquela que satisfaça as suas necessidades. Um outro benefício da livre associação é que se a estrutura é falha, todos podem rapidamente se desassociar e se reassociar sem os tediosos processos dos quais o estado de bem-estar social traz consigo.

Prestação de contas vs Burocracia

Hierarquia implica burocracia e isso é verdadeiro para o estado de bem-estar social também. Quando as pessoas, em situação de necessidade, se voltam para o estado em busca de cuidados, geralmente elas são atendidas com uma burocracia desanimadora e impessoal, com dificuldade de compreender a papelada, com perguntas sobre seus hábitos pessoais, e características que você preferiria manter consigo, etc... É difícil imaginar que a estrutura centralizada e de cima para baixo jamais poderia possuir o altruísmo mágico que os progressistas sociais atribuem e não atribuem à ela. Hierarquia, burocracia e centralismo tornam o suposto igualitarismo do estado de bem-estar social em uma piada perversa. A hierarquia, como Kevin Carson aponta [N. T.: em seu livro “The Desktop Regulatory State” (O estado regulador de área de trabalho, tradução livre)], é incapaz de processar de forma adequada a informação necessária para atender a sua função:

Não importa o quão perspicaz ou cheio de recursos eles são, não importa o quão prudente, como seres humanos em lidar com a realidade real. No entanto, pela sua própria natureza, as hierarquias isolam aqueles no topo da realidade sobre o que está acontecendo em baixo, e força-os a operar em mundos imaginários onde toda a inteligência deles se torna inútil. Não importa o quão inteligente os gestores são como indivíduos, uma hierarquia burocrática torna a inteligência deles menos utilizável.

Em uma sociedade de ajuda mútua, os interesses são tratados em uma estrutura democrática focada face a face. Informações sobre recursos disponíveis e as necessidades de cada membro são abertas à todos. Indivíduos são mais respeitosos para com outro, uma vez que todos eles estão mutuamente em dívida para com o outro. Diferente para a dívida que um beneficiário de bem-estar social tem ao assistente social. Interesses que exigem comunicação e tomada de decisão sobre uma ampla área geográfica seriam tratados por meio de uma federação exonerada e livre entre organizações locais, significando que o poder vem de baixo para cima, como o oposto do de cima para baixo. Organizações feitas de baixo para cima se iniciam com o indivíduo e se interligam dentro de uma federação complexa de indivíduos e grupos baseados nas escolhas destes indivíduos. Isso significa um grau de prestação de contas sem precedentes na desanimadora burocracia do estado de bem-estar social.

Em suma:

O bem-estar social é privilégio abrandando as bordas da própria tirania através da caridade, a ajuda mútua desmantela o privilégio e o substitui com a solidariedade recíproca.

O bem-estar social destrói o aspecto social da rede de seguridade por apontar uma arma no pescoço de todo mundo, a ajuda mútua se torna a realização completa do aspecto social por torná-lo voluntário e humano.

O bem-estar social utiliza os meios de menos liberdade, a ajuda mútua utiliza os meios de mais liberdade.

O bem-estar social cria dependência de muitos para com uns poucos, a ajuda mútua cria interdependência mútua de todos os envolvidos.

O bem-estar social tenta alcançar os fins de uma rede de seguridade social pelos meios de uma burocracia hierárquica desanimadora, a ajuda mútua tenta alcançar os mesmos fins através de uma democracia horizontal, humana e responsável.


O bem-estar social é a adolescência da justiça sócio-econômica, e a ajuda mútua é a sua adultícia.

Traduzido por Rodrigo Viana. Para ler o original clique aqui.


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