sexta-feira, 9 de maio de 2014

Meu problema com o capitalismo, em poucas palavras



Por George Donnelly

'Capitalismo' é uma palavra engraçada. Significa tantas coisas diferentes para tantas pessoas diferentes que se torna inteiramente inútil como um fundamento de qualquer tipo de comunicação racional ou construtiva. Para alguns, é uma vasilha para idealizar e despejar todos os seus sonhos dentro. Para outros, é uma lata de lixo que pode encher com suas reclamações e as mais cínicas expectativas para o futuro. Mas o que é capitalismo, em sua raiz?

Alguns irão mencionar trabalho assalariado, outros exploração e outros também irão falar de livre comércio. Porém eu acredito que a característica definidora é a habilidade de acumular muitos, muitos e muitos objetos (capital). E então, a mais importante, ter uma terceira facção que proteja sua habilidade para controlar esse algo mesmo que você não esteja usando-a. Essa terceira facção, claro, é o estado (o governo).

(Tem que ser um governo? Não. Contudo, eu não acho que uma organização não-agressiva irá avançar na mesma extensão assim como o estado para proteger a propriedade.)

Sem essa habilidade para acumular e ter seu título de propriedade ao referido objeto protegido por pouco à nenhum custo para si mesmo, assuntos como trabalho assalariado, exploração e comércio controlado não poderiam ocorrer. Isso tudo depende dos desiquilíbrios de poder que se originam do estado em proteger o controle dos capitalistas das propriedades deles.

Eu não acho que o capitalismo sobreviveria sem o estado. Numa sociedade sem estado, as pessoas estariam mais livres para se levantarem contra pessoas que tentam controlar mais propriedade do que eles realmente utilizam. Agindo em acordo, grandes números de pessoas poderiam, no pior caso, adquirir armas, formar uma força de defesa e lutar contra os capitalistas em um nível de mais igualdade. Posseiros, cooperativas de posse de trabalhadores e agentes diretos similares assumiriam o controle em maior quantidade das propriedades dos capitalistas. No decurso, os poderes dos capitalistas seriam corroídos.

Para aqueles que dizem que capitalismo é livre comércio, nada mais e nada menos, isso não é a característica definidora. Livre comércio pode ocorrer sob muitos sistemas ideológicos diferentes. O livre comércio está florescendo agora mesmo na China, no meio de um ostensivo sistema socialista. O livre comércio pode ocorrer em uma sociedade anarquista. Eu não duvido que o livre comércio ocorreu até na União Soviética, onde alguns podem ter permutado vodka por pão (ou o oposto), por exemplo.

Nem exploração é uma característica definidora de capitalismo, uma vez que pode ocorrer em qualquer lugar onde haja um desequilíbrio de poder, incluindo sob regimes socialistas, comunistas, democráticos ou, evidente, totalitários e antigos. Em outras palavras, exploração não é único ao capitalismo.

Então esse é o meu problema com o capitalismo: de que algumas pessoas privilegiadas chegam a acumular toneladas de objetos às custas de outros por usar o governo para protegê-los da ação de mercado. Por ação de mercado eu quero dizer se apropriar de propriedade que os próprios capitalistas não estão utilizando.

Assim, não estou de boa com o capitalismo (não mais). No que estou? Eu simpatizo com a ideia de que as posses das pessoas devam ser respeitadas. Estes são objetos que um indivíduo utiliza em um princípio básico habitual para viver sua vida. Eu incluiria todas as ferramentas e bugigangas que uma pessoa utiliza em sua casa e nos seus negócios, incluindo uma quantidade razoável de terra para viver, para utilizar para recreação e produzir comida; e tudo que se passa com o seu negócio.

Se uma pessoa prospera legitimamente, eu não tenho princípio para contestar qualquer acumulação de riqueza. Mas eu discordo com o controle absentista de objetos, especialmente de recursos naturais. Existe um argumento de que a toda a terra é o patrimônio comum de todas as pessoas. E eu acho isso convincente. Assim, pois uma pessoa negar às outras a utilização sensata deste patrimônio comum não é legítimo.

Por exemplo, se alguém cerca 1000 acres de terra, mas utiliza consistentemente somente 2, eu não considero isso legítimo. Simplesmente ser o primeiro a cercar não é um fundamento sólido para negar esse patrimônio comum aos outros. Se alguém precisasse de terra e tivesse uma intenção sólida em utilizá-la e manter sua vida, eu apoiaria essa pessoa em qualquer tentativa de se apropriar de uma parcela razoável dos 1000 acres.

Um capitalista poderia argumentar que o primeiro cercador misturou seu trabalho com a terra ou que registrou o título de propriedade e então agora isso era “parte dele” (que soa um pouco místico demais para o meu gosto). Porém o primeiro cercador apenas misturou seu trabalho com 2 acres que ele está utilizando e a faixa estreita de terra que está a cerca. E sobre os outros 998 acres? Ele não fez nada lá. Por isso, eu nem mesmo acho que o princípio de apropriação apoia as ações do primeiro cercador.

Mas você não pode viver sem propriedade, dizem os capitalistas. Sim, você pode. Você pode viver com posses, as coisas que você controla e utiliza. Você pode viver a vida totalmente sem aqueles objetos que você não utiliza, mas controla (propriedade). Se você não os utiliza, isso aí mostra que você não precisa deles para viver.

Traduzido por Rodrigo Viana. Para ler o artigo original clique aqui.


George Donnelly é formado em história pela Universidade de Chicago. Atua como palestrante, ativista e escritor, tendo três livros publicados.

Um comentário:

Assuhero Galvão Marques disse...

Um dos textos sobre as ideologias econômicas e políticas mais bem apresentados que eu já li, Claro, conciso, objetivo, fluente, traduz perfeitamente o nível de conhecimento do autor, meus parabéns, mesmo tendo sido apresentado em 2014, pode ser comentado e divulgado largamente agora em 2016, é para calar a boca de muita gente que sequer sabe uma ínfima parte do que foi exposto!