terça-feira, 6 de maio de 2014

O que anarquismo realmente significa



Por Alex Prichard


Protestadores nunca são um grupo homogêneo, mas aqueles que protestaram sob a bandeira de anti-cortes na semana passada estavam unidos no ponto de vista de que a mercantilização do ensino superior deveria ser combatida. No entanto, de forma típica, a destruição de propriedade magicamente transformou um subconjunto considerável em “anarquistas” e deu um sinal verde para a rejeição geral de seus interesses.

É certamente verdade que anarquistas estavam entre os protestadores.

O que é enganador é a suposição da mídia de que existe um relacionamento generalizado entre anarquismo e violência. Anarquismo é uma tradição muito mais rica e no ponto de vista do frenesi da mídia, vale a pena refletir sobre o que significa.

A aliança dos partidos britânicos Conservador e Democratas Liberal está procurando reverter o estado. Anarquistas querem isso também, mas o governo está procurando reverter o estado e deixar as empresas assumirem a negligencia, desse modo trazer um “livre mercado” fictício em cada último recesso de nossas vidas. Isso é onde o desacordo vive. Anarquistas defendem alternativas práticas tanto para essa política neoliberal extremamente cruel e implacável quanto para o velho socialismo de estado do partido Trabalhista.

Gerar um mercado na educação beneficiará aqueles que querem fazer dinheiro com isso. Sobretudo, isso irá incluir universidades e empresas dirigidas ao lucro. Educação pela proposta de desenvolver um senso de nosso potencial pessoal e social está ausente, enquanto educação para um cheque de pagamento gordo está dentro: o governo sai fora do exercício de seus papéis de balanço e amontoa os custos aos estudantes. Os estudantes estão, na realidade, sendo convidados a pagar universidades acima de 40 mil libras para uma entrevista de emprego com um recrutador graduado. E se o seu “investimento” no seu futuro não liquidar, o sistema irá alegar como não tendo culpa: a responsabilidade é dos estudantes. Para assumir que os interesses das empresas e da sociedade são os mesmo é utópico.

Porém anarquistas não acreditam que o socialismo de estado é a única alternativa para as desigualdades não democráticas produzidas pelo neoliberalismo. Socializar propriedade não tem de significar nacionalizá-la – que simplesmente iria substituir um conjunto de patrões por outro. E quanto a genuína propriedade coletiva de trabalhadores de indústrias e serviços; e quanto a universidades democraticamente gerenciadas por acadêmicos, estudantes e quadro de funcionário de apoio ao invés de, em grande parte, gerentes e tecnocratas em excesso?

De modo mais amplo, nós não poderíamos radicalizar o modelo cooperativo e ter todas empresas democraticamente sob propriedade e gerenciada por gerentes e trabalhadores? Não poderíamos expandir e federar cooperativas mútuas e coletivas, de trabalhadores? O movimento em prol da posse de torcedores de clubes de futebol é uma indicação a mais de que esses tipos de alternativas funcionam. O desafio é pensar através de seu potencial e o anarquismo fornece tal quadro. Mas como tudo isso difere da “grande sociedade”, você poderia perguntar? Em suma, os partidários do Partido Conservador estão tentando mutualizar o estado assistencialista em preparação para privatizá-lo. Indivíduos serão responsabilizados, mas será dado nenhum poder. Associações de caridade, voluntária e tudo mais serão permitidas organizarem um festival beneficente, mas as estruturas neoliberais do poder não serão contestadas. Não faria mais sentido começar por mutualizar os bancos?

Tal como está, políticos conseguiram proteger os bancos enquanto todos os outros fazem um grande esforço. Como os cortes comprimem o pobre e o rico não fica mais pobre, vai ficar claro a quem os interesses estão sendo servidos. Como a militância de trabalhadores cresce e os protestos se tornam mais frequentes, a demanda por estados cada vez mais fortes e autoritários se tornarão mais barulhento, as liberdades civis serão reduzidas (de novo) e aqueles no topo da árvore nos dirão que eles tem algum direito especial.

Democracias liberais modernas colhem a opinião de alguns adultos de idade de votação uma vez a cada cinco anos como uma solução para a elite pré-determinada barganhar. Quem votou para a coalizão partidária Conservadora- Democratas Liberal? Quando os governos que são votados, em seguida, rotineiramente ignoram a vontade do povo, haver que além de guerras, custos ou minúcias de política, vemos a democracia representativa moderna devido a farsa que é. Permitir protestos somente na condição de que nunca irá apresentar uma contestação ao governo é parte da mesma farsa. Porque essa falsa democracia não funciona e os interesses dos anarquistas nunca poderiam ser representados por um partido político, ação direta é a tática de escolha. E ação direta é parte do processo de criar democracia direta. Produz resultados por aumentar o perfil de motivos e muitas vezes travando práticas que muitos contestam.

Bem como uma tática, ação direta é também um meio para auto-empoderamento. É um componente da sociedade que nós esperamos criar, onde as pessoas tomam controle de suas vidas por suas próprias mãos e confrontam as causas raiz de injustiças diretamente, sem representantes. Isso, às vezes, inclui dano de propriedade, mas anarquistas tomam seriamente as noções de liberdade e igualdade: de que pessoas são capazes de falar e agir por elas mesmas e se tornam até mesmo mais capazes através da prática ao invés da representação.

A ameaça a um mundo viável não vem dos anarquistas, mas dos governos e do capitalismo. Antes da crise atual ser usada como uma fachada para nos levar ainda mais fundo em um pesadelo neoliberal, vamos reconsiderar as alternativas.

Traduzido por Rodrigo Viana. Para ler o artigo original clique aqui.


Alex Prichard é doutor em 'Relações políticas e internacional e estudos europeu' pela universidade de Loughborough. Ele é pesquisador e integra o grupo Anarchist Studies Network no Reino Unido.

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