quinta-feira, 22 de maio de 2014

Seduzidas e desonradas



Por Maria Lacerda de Moura


Publicado no jornal O Combate, edição 4581- página 3, São Paulo, 15 de Dezembro de 1927.


Multiplicam-se, assombrosamente, as noticias de suicídios diários: moças seduzidas pelos namorados, com promessas de casamento.

Os jornais procuram fugir à responsabilidade, apontada no ruído com que tratam todos os pormenores, publicando cartas e noticiando os incidentes e particularidades das tragédias amorosas.

Mas, a imprensa á, realmente, a que cultiva e incita, a que maior culpa tem no crescendo desses atentados á própria vida.

Os jornais são feitos sob a rigidez perversa da moral burguesa-capitalista e feitos, na sua maioria, pelos homens – bem instalados na vida sob o ponto de vista sexual – e se há mulheres na redação, no jornalismo, pensam e agem também dentro da hipocrisia farisaica dessa moral fossilizada e pesada de crimes.

Pelo código desse moraliteísmo, a mulher virgem que se entrega a um homem, nada mais tem que fazer senão o suicídio, se é abandonada.

Dentro desta moral, a jovem está desonrada, perdida, desgraçada e tem de carregar o peso de todos os atributos que procuram inutilizar para a vida uma criatura humana.

Nunca a perversidade dos seres que se julgam racionais foi mais longe do que na concepção estreita de que a mulher (animal seguindo a evolução pela mesma escala zoológica de todos os animais, com as mesmas necessidades fisiológicas e os mesmos direitos de indivíduos na multiplicação da especie e na liberdade sexual), nunca a maldade humana desceu tão baixo quando decretou que a mulher deve guardar a virgindade para entrega-la ao “esposo”, somente dentro da lei, em certo dia determinado pelos pais, pelo escrivão de paz e pelo padre e diante de testemunhas e convidados os quais ficam sabendo: é naquela noite que se rompe uma película de carne do seu corpo, chamada hímen. A himenolatria dos cristãos civilizados. Profundamente ridículo.

Que de humilhações tem sofrido a mulher através da historia dessa humanidade tão desumana!

E ai daquela que se esquece do protocolo. Se, hoje, não é lapidada, se não é enterrada viva como as vestais, se não é apedrejada até a morte, se não sofre os suplícios do poviléu fanático de outros tempos, inventou-se o suicídio: é obrigada a desertar da vida por si mesma, porque a literatura, a imprensa, toda gente aponta-a com o dedo, vociferando o “desgraçada”, “perdida”, “desonrada”, “desonesta”, abrindo-lhe, no caso contrario, as portas da prostituição barata das calçadas, com todo o seu cortejo de misérias, de sífilis, de bordeis, de humilhações, do hospital e da vala comum.

Miserável moral de coronéis, de covardes e cretinos! E o homem cresce com as suas aventuras, adquire prestígio, famas e glorias até mesmo e principalmente entre o elemento feminino.

É incrível até aonde vai a imbecilidade humana, a perversidade dessa moral cristã, tão divorciada do meigo Nazareno: “quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”.


Dentro da concepção estreita e má dessa moral de escravos e senhores, o mesmo ato praticado por dois indivíduos de sexo diferente tem significações opostas: a mulher se degrada, torna-se imoral, desonesta, desonrada, está desgraçada, perdida irremediavelmente se não encontra um homem para lhe dar o título de “esposa” perante a lei e as convenções sociais, enquanto o homem é o mesmo, talvez tendo adquirido mais valor de estimação perante as próprias mulheres, e sendo invejado pelos outros homens.


Essa moral nada difere de algumas tribos primitivas que os etnógrafos de gabinete estudam curiosidades e admiração, esquecendo-se de que nós, os civilizados, somos mais selvagens e tão primitivos quanto os mais primitivos dentre os selvagens.

O que espanta é a atitude servil da mulher – a imbecilizada secular – a santa mente fechada para perceber a idiotice da moral cristã (em nome de Cristo quantas barbaridades se cometem!) a sua perversidade sempre que julga e condena outra mulher.

Não quer ver o seu direito de animal na escala zoológica, o dever de ser dona do seu próprio corpo e senhora da razão, da liberdade de dirigir e governar os seus impulsos, como lhe aprouver.

A educação, a rotina, a tradição, o confessionário se encarregam do que falta para fechar, num circulo de ferro, o cérebro da mulher, não deixa-lo raciocinar e perceber a tutela milenar que a tem submetida pelos preconceitos e dogmas religiosos – exclusivamente para o prazer bestial do sexo forte, que, por ser forte, é o mais bem aquinhoado na partilha do leão.

Mas, a mulher não se deixa lesar... O casamento é porta aberta para o adultério. E ela mente, engana, atraiçoa. Serve-se da astucia e da Hipocrisia – as únicas armas de que pode dispor.

Porque, os homens vulgares, e são quase todos, preferem ser enganados...
Uma grande parte, porem, inexperiente, as mulheres moças, apaixonadas, emotivas, desiludidas recorrem ao suicídio como porta de salvação para a sua angustia. Esse crime arrebata á vida tantas energias moças. É o resultado da moral farisaica dos cristãos piedosos e caridosos – cujo porta-voz é a imprensa, quer seja governista ou oposicionista, religiosa ou laica.

As pobres mulheres apaixonadas não chegam a raciocinar um instante sequer para compreender, para sentir que o nosso coração tem mais uma primavera, que isso a que chamam de amor pode ser renovado, que amamos mais uma vez na vida, de acordo com o temperamento ou as etapas de evolução, porque, nem todos são eleitos para chegar a realizar o grande amor...

Não perceberam que a nossas idades de ouro, aos 15 anos, os 25, os 30 e os 40 nos ensinam experiências sempre mais belas progressivamente e nos dizem coisas lindas através de ilusões do amor que, em todas as idades tem a sua perfumada estações de sonhos e de esperanças novas. E é belo e profundo saber amortalhar as ilusões...

Desfeita uma visão, outra virá, talvez, mais bela, povoar de imagens a nossa imaginação irrequieta, na escalada de uma evolução mais alta.

E, se uma experiência amorosa nos deixa o travo de amargura, é, por sua vez, degrau para subir os visos de uma ilusão maior.

Não viram que a liberdade sexual do homem é ilimitada, que ele não é considerado perdido, que se não desgraça porque usa e abusa dessa liberdade e que não é natural nem justo uma moral para cada sexo.

E a eterna tutela, o idiota milenar ainda hoje, em pleno século de tanta reivindicações femininas, se esquece da mais importante das suas reivindicações – a de ser dona do seu próprio corpo, a da sua liberdade sexual, a do ser humano com o direito á alegria de viver a vida integralmente, em toda a sua plenitude.

E suicida-se porque foi seduzida, porque a desgraçaram, porque esta perdida.

Santa ingenuidade.

Por que razão por fim á sua vergonha, se isso a que os jornalistas chamam de vergonha é a iniciação em a mais bela das Leis Naturais, o abc da Lei Maxima, a Lei  do Amor, a Lei da integração de dois seres no espasmo da Harmonia Universal?

E é desprezando as Leis Naturais, as Leis não escritas – que os homens, servindo a interesses egoístas, tão pequeninos, escrevem e legislam as suas leis de lamentável perversidade, encurralando o coração humano na jaula de ferro de uma justiça de fogo, matando e sensibilidade das criaturas na aridez de uma moral fria, sem alma, torpe, assassina de milhões de vitimas, sacrificadas no templo de Molóc dos preconceitos sociais.



Maria Lacerda Moura foi professora e ativista libertária. Defensora do anarquismo individualista, seus trabalhos eram centrados em temas como o feminismo, a educação e o anarquismo.

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