terça-feira, 11 de novembro de 2014

Como um ultraliberal se tornou um libertário socialista




Este texto foi escrito nos anos 90 e é bem conhecido na internet anglófona.

Por Chris Wilson

Há dois anos atrás quando eu estava estudando rumo a minha graduação em filosofia na faculdade, eu escrevi uma réplica sobre a seção do The Anarchist FAQ que cobre o anarco-capitalismo. Eu removi a réplica da internet porque eu não tive tempo ou disposição para continuar a manter ou expandi-la. Três anos depois, eu me vi discordando com as minhas antigas réplicas e concordando com o FAQ. O que segue é minha história.

Eu iniciei o meu posto como um ultraliberal de direita lendo Ayn Rand, que me dissuadiu das simpatias bastantes confusas da esquerda que eu mantinha na época. No entanto, eu era só um entusiasta da Rand por um curto período de tempo e eu logo desenvolvi um interesse nos pensadores de livre mercado “mais sensatos”, tais como von Mises, Nozick, Hayek, David Friedman, etc. Eu era um ferrenho adepto do capitalismo sem entraves e “apátrida” em torno de quase 3 anos, e desenvolvi e/ ou adotei toda justificação filosófica e econômica que possa ser concebida pela sua defesa. Entretanto, antes de eu ter me formado na faculdade eu lancei fora minha crença de que alguém pode reivindicar direitos de propriedade privada sobre a terra. Eu defendia uma teoria de trabalho da propriedade e, considerando que a terra não é um bem produzido, descobri que isso não era defensável de acordo com os princípios que eu defendia. Conclui que aquele que acumula terra está colocando uma restrição sobre a liberdade de outros de usá-la ou para movimentar-se de forma sem justificação e, portanto, o requerente deve compensá-los por pagar um imposto único sobre a terra para ganhar direitos exclusivos a ela.

Apesar das minhas novas visões georgistas socialistas da terra, eu ainda defendia um sistema econômico capitalista no que diz respeito aos bens produzidos. No entanto, eu me tornei muito mais crítico em relação às corporações e eu fiquei chateado com os outros ultraliberais pela falta de foco deles sobre as injustiças perpetradas pelas corporações. Eu desejava abolir cartéis corporativos, subsídios, propriedade intelectual, privilégios regulatórios, concessões de terras, etc. como eu os considerava violações da liberdade. Se você pressionar um ultraliberal sobre os privilégios que as corporações recebem, eles geralmente dizem “Ah, bem eu sou contra eles”, contudo eles quase nunca tomam a iniciativa em dirigir qualquer crítica contra elas. Mais frequente do que parece, eles louvam as “virtudes” alegadas das corporações, ao passo que focam sobre como o governo viola esses “direitos” das corporações.

Em primeiro lugar, quando eu me tornei um anarco-capitalista eu achava que abusos corporativos poderiam ser evitados em um domínio econômico em que as corporações não desfrutassem de tantos privilégios regulatórios. Inicialmente eu liguei todas as empresas “ponto com” e “comércio eletrônico” – eu considerava a indústria da internet a ser aquela em que os princípios do livre mercado fossem respeitados, ao contrário de tantas outras indústrias. Entretanto, no ano passado eu vi todas essas empresas se tornarem tão cruéis quanto qualquer multinacional. Eu pensava que todas as empresas “ponto com” eram pequenas como um resultado do funcionamento da indústria de acordo com princípios genuínos de livre mercado, mas na verdade elas eram pequenas *apenas de início*. A maioria delas já não são mais pequenas. Além disso, as empresas mais prósperas estão hoje buscando se beneficiar do privilégio estatal, que é evidente em muitas ações judiciais de propriedade intelectual que estão atualmente pendentes na indústria do comércio eletrônico.

Quando eu estava descobrindo isso (e me tornando um usuário Linux radical no processo), eu estava trabalhando como representante de serviço ao cliente em uma grande e bem conhecida corporação que produz programas de computador (não é a Microsoft). O ato de trabalhar ao invés de ir para a escola, deu-me um novo respeito por movimentos trabalhistas organizados. Adicionalmente, isso me gerou uma simpatia na medida que as corporações ferravam seus clientes. Como eu gastei os próximos seis meses trabalhando para essa produtora de programas bugados, eu cheguei à conclusão de que o meu emprego como representante de “serviço ao cliente” envolvia um pouco mais do que desenvolver racionalizações inteligentes para defender essas atividades fraudulentas da empresa. A maioria dos outros representantes adquiriu as racionalizações da empresa – a maioria dos empregados, incluindo supervisores, acreditavam sinceramente que a empresa fornecia serviço “de nível internacional” aos clientes, o que não poderia estar mais longe da verdade. Sinto vergonha de dizer que eu adquiri *algumas* das propagandas como um resultado de buscar formas de apaziguar a ira dos clientes. E por causa da posição em que nós estávamos – isto é, constantemente ouvindo gritos e sendo criticados pelas políticas que fogem dos nossos controles – era impossível se abster de ficar extremamente ressentido a repeito das tristezas legítimas dos consumidores. Por fim, a empresa adotou algumas novas políticas desagradáveis que eram tão obviamente indefensáveis que eu tive que terminar com o meu relacionamento com a empresa no geral. Fiquei completamente desiludido com a cultura corporativa.

Embora eu fosse a favor de mercados livres, eu era assim porque eu os considerava necessários pelos princípios que eu mantinha. Princípios sempre vieram em *primeiro lugar* para mim – não a economia. No entanto, na época em que eu parei de trabalhar na corporação de programas, finalmente, a ficha caiu de verdade de que as empresas não poderiam *se importar menos* sobre os princípios. As perguntas “Isso é correto?” ou “Isso é justo?” sequer entram nas mentes dos tomadores de decisão de empresas capitalistas – tais perguntas são irrelevantes na vista deles. Embora eu fosse um ultraliberal na época, eu mantinha minhas visões porque eu acreditava realmente que elas seguiam, de forma lógica, o meu amado princípio de auto-governo. Apesar de que eu sabia que *muitas* empresas capitalistas eram completamente desprovidas de princípios, em minha ignorância eu acreditava que isso era só verdade em grandes corporações ajudadas pelo governo. Foi muito desanimador aprender ao longo do tempo que este fato se aplicava para a *maioria* das empresas, independente se elas eram ou não corporações que lucravam a partir de favores estatais. Se elas realmente não recebem favores vindos do estado, então elas tipicamente almejam recebê-los.

Uma semana depois eu saí da empresa de programas de computador, tive sorte e consegui um emprego fornecendo suporte técnico no Fornecedor de Acesso à Internet (ISP) local. Eu pensei comigo mesmo que essa empresa, sendo uma empresa local, seria fundamentalmente diferente. Embora eu realmente prefira trabalhar para o ISP em vez de trabalhar para a mega gigante de programas, rapidamente se tornou óbvio para mim que as motivações e os princípios (ou a falta deles) do presidente e dos maiores acionistas do ISP não são diferentes dos de quaisquer grandes empresas. Embora o ISP seja relativamente pequeno hoje, ele não pretende permanecer por muito tempo. Eu vou dizer que a expansão de um ISP normalmente não favorece os empregados, uma vez que nos obriga a assumir responsabilidades pelos problemas dos clientes que estamos em posição de corrigir (assim como era bem comum com a empresa de programas). Além disso, aqueles que comandam a empresa ainda pensam nos empregados como um custo a ser minimizado. A regra é contratar o mínimo possível, pagar-lhes a menor quantia possível e fazê-los trabalhar mais vezes possível. Desde que iniciei na empresa, eu tenho assumido muito mais responsabilidades do que apenas o suporte técnico, porém meu salário não tem aumentado. Apesar da natureza técnica do meu emprego, os trabalhadores da mercearia próxima ganham mais do que eu, visto que eles são sindicalizados e eu não.

Minha experiência no mundo do trabalho me obrigou a reconsiderar seriamente minha defesa do capitalismo, sob qualquer forma. Como eu estava muito comprometido com os princípios ultraliberais, eu comecei a estudar os “anarquistas socialistas” (eu coloquei “socialistas anarquistas” em aspas, embora hoje eu considero tal termo uma redundância – anarquistas são necessariamente socialistas). Eu me obriguei a considerar o desacordo fundamental que separa Bakunin, Kropotkin, e Malatesta de Rand, von Mises e Friedman. Minha resposta para mim mesmo: os defensores do capitalismo crêem que alguém pode ceder por escrito ou vender a liberdade de alguém, enquanto que os anarquistas não. Como um ultraliberal capitalista, eu era da opinião de que se podia entrar em um acordo moralmente obrigatório ao que se sacrifica a liberdade de alguém em troca de um salário. Minha posição era de que um trabalhador estaria cometendo fraude contra o empregador se ele tentasse reter direitos ao produto completo do seu trabalho. Meu argumento era de que se um empregador possui uma reivindicação prévia “legítima” sobre o capital sendo usado, então ele tem o direito de ditar seus termos de uso. O trabalhador não tem o direito a qualquer coisa além do que o capitalista concordar em dar, assim como o capitalista não tem o direito de tomar qualquer coisa além do que o trabalhador concordar em dar (claro, eu não percebi em meus tempos de “anarco-capitalista” que os capitalistas quase sempre exigem mais do que o trabalhador inicialmente concorda em dar).

Minha posição atual é aquela em que uma pessoa não pode ser obrigada eticamente a algo por acordos que restringem a liberdade dela em se auto-governar. Esse sempre foi o meu ponto de vista de que não se pode ser obrigado, por um acordo, a ser um escravo. Embora uma pessoa possa aceitar um contrato que determina ela a se servir como um escravo, ela pode ser considerada livre para finalizar esse contrato a qualquer momento. No entanto, eu não vinha aplicando este princípio para todas as formas de dominação – eu apenas aplicava para a escravidão de pessoas como se fossem bens em tempo integral, e não para o trabalho assalariado, para a tirania doméstica, etc. Quando eu estava resolvendo minhas questões a respeito deste assunto, decidi simplificar minha decisão ao sujeitar-me a uma experiência de pensamento: João é um indivíduo com nenhum acesso ao capital, ao qual o exclui de ser um trabalhador autônomo. Ele deve encontrar alguém que irá compartilhar o acesso ao capital, se ele quiser continuar a comer. Felizmente Antônio tem bastante capital e está interessado em compartilhar – sob certas condições, claro. Antônio diz a João que ele pode usar o capital de Antônio para produzir, *desde que* João se empenhe em 90% da produtividade enquanto Antônio se empenhe em 10%. Ademais, João irá receber apenas 10% da receita além de seu trabalho duro, enquanto Antônio fica com 90% para a sua própria gula. João concorda com essas condições porque ele não tem outra opção. Moralmente, João é obrigado por meio do próprio acordo a permitir que Antônio mantenha 8, das 9 partes do que João produz? O capitalista, claro, responde “Sim” e, num certo tempo, eu teria dado a mesma resposta, muito embora eu sabia intuitivamente que tal arranjo seria grandemente injusto. Minha resposta atual é “Não”  essa relação entre Antônio e João é inerentemente exploratória, e João tem direito a algo muito melhor.

Isso completou minha conversão ao anarquismo verdadeiro, quer dizer, o *socialismo libertário*. O processo evolucionário foi lento – tudo não aconteceu em uma noite. Eu continuei a me considerar um anarquista individualista por algum tempo, e me mantive mais atraído pelas ideias de Tucker e Proudhon que quaisquer dos anarquistas sociais. Mas quanto mais eu lia Bakunin, Kropotkin, Malatesta e Rocker, e estudava a Guerra Civil Espanhola e a Revolução Russa, eu concluía que o anarquismo social era uma melhor alternativa. Diferente das variedades individualistas e mutualistas do anarquismo, o anarco-comunismo não fornece um caminho para o capitalismo se restabelecer e isso teve um sucesso revolucionário parcial no passado histórico de países como a Espanha e Ucrânia. O que inicialmente me mantinha longe do anarquismo social era o fato de que muitos dos seus defensores não salientam a perspectiva do que é geralmente chamado de “tirania da maioria”, que eu penso ser uma preocupação válida. Isso não pode ser suficientemente enfatizado que, sob o anarquismo, ninguém seria forçado a se juntar a uma comuna ou a uma federação. Se alguém deseja ser livre para trabalhar independentemente de um coletivo democrático, essa liberdade seria reconhecida e respeitada, desde que ele não tente acumular mais recursos do que se usa ou empregar pessoas por um salário. Concedido isso, os anarquistas não iriam *proibir* o trabalho assalariado, mas “acordos” em que trabalhadores cedem por escrito a liberdade deles não iriam se fazer cumprir.

Uma vez fazendo a transição do libertarianismo de direita para o de esquerda, eu tenho descoberto que o facciosismo e o sectarismo é tão difundido aqui quanto era lá, se não mais. A tecnologia é um bom exemplo de um assunto que divide o movimento anarquista. Por um lado, existe os ludistas anarco-primitivistas que se afastam de todas as formas de tecnologia complexa e que desejam retornar para uma sociedade de caçadores-coletores. E por outro lado, existe os anarquistas que reconhecem que a tecnologia pode ser benéfica se o seu desenvolvimento for dirigido pelos próprios trabalhadores, de uma maneira que seja responsável às comunidades que ela afeta. Eu fico em algum lugar no meio, entre as duas posições – eu não tenho nenhum desejo de retornar para uma sociedade de caçadores/ coletores, mas também preferiria não depender de tecnologia que requeira uma divisão de trabalho tão extrema em que a produtividade se torna uma atividade alienada e sem sentido. Trabalhando na indústria de computadores, eu também entendo que quando a complexidade tecnológica transcende nossa habilidade de entendê-la, isso se torna uma instância da máquina estar no controle de nós, e não o contrário. Se a tecnologia é uma forma de libertação ou dominação, isso é um tópico debatido de forma calorosa pelos anarquistas. Contudo, eles concordam, em oposição aos “libertários” de direita, que uma sociedade em que as circunstâncias criadas pelos humanos forcem as pessoas a “fazerem acordos” para sujeitar as próprias vontades aos de um patrão, isso de nenhuma maneira é algo “livre”.

Traduzido por Rodrigo Viana. Para ler o artigo original clique aqui.

Veja também:

3 comentários:

marcos disse...

Bacana. Mas no fim fica a pergunta como evitar o Caminho da Servidão?

"sob o anarquismo, ninguém seria forçado a se juntar a uma comuna ou a uma federação."

Como assegurar isso?

Administrador disse...

Marcos não existe espaço para um "caminho da servidão" pois a autoridade é dispersa entre as pessoas. Não existe a figura de um governante ou grupo distinto porque ela é baseada na democracia direta e de estrutura anti-hierárquica. Seria instituições assim que assegurariam a autonomia das pessoas.

Anônimo disse...

A propriedade vem da relação de uso, é utilitarismo, a mesma coisa que justifica a auto-propriedade. Só que a propriedade sobre a terra é alienável na forma de abandono ou troca. Já voltou a ser anarco capitalista?