segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Socialismo: o que é



Por Benjamin Tucker

Publicado no jornal Liberty, 17 de Maio de 1884.

"Você gosta da palavra Socialismo?" disse uma senhora para mim outro dia; "Temo que não; de alguma maneira eu me contraio quando ouço isso. É associado com tudo que é ruim! Eu devo continuar assim?"

A senhora que fez essa pergunta é uma anarquista séria, uma grande amiga do jornal Liberty, e é quase desnecessário acrescentar — muito inteligente. Suas palavras exprimem o sentimento de muitos. Mas, afinal de contas, é somente um sentimento, e não irá suportar o teste de pensamento. "Sim", eu respondi, "é uma palavra gloriosa, muito maltratada, violentamente distorcida, estupidamente mal compreendida, mas expressa melhor do que qualquer outra proposta de progresso político e econômico, o objetivo da Revolução neste século, o reconhecimento da grande verdade de Liberdade e Igualdade, através da lei da Solidariedade, provocará o bem estar de cada para contribuir ao bem estar de todos. Então, uma boa palavra não pode ser dispensada, não tem de ser sacrificada, nem deve ser roubada".

Como isso pode ser salvo? Apenas por surgi-la fora da confusão que a obscurece, afim de que todos possam vê-la clara e definitivamente e o que fundamentalmente significa. Alguns autores tornam o Socialismo inclusivo de todos esforços para melhorar as condições sociais. Proudhon é renomado a ter dito alguma coisa do tipo. No entanto, isso pode ser, a definição parece ser ampla. Etimologicamente não é insustentável, mas derivativamente a palavra tem um maior significado técnico e preciso.

Atualmente (perdoe o paradoxo!) a sociedade é fundamentalmente anti-social. O conjunto assim chamado trabalho social repousa no privilégio e poder, e está desordenada e fatigada em toda direção pelas desigualdades que necessariamente resultam disso. O bem estar de cada, em vez de contribuir para o todo, como naturalmente deveria e seria, quase invariavelmente diminui a partir de todos. Riqueza é feita por privilégio legal, um gancho com que rouba das carteiras do trabalho. Todo homem que fica rico, por esse motivo, torna seu vizinho pobre. Quanto melhor um está, pior está o resto. Como Ruskin diz, "todo grão do Incremento calculado para o rico é equilibrado pelo seu equivalente matemático do Decremento para o pobre". O Deficit do Trabalhador é precisamente igual ao Efficit do Capitalista[1].

Ora, o Socialismo quer mudar tudo isso. O Socialismo diz que o que é carne de um homem não deve mais ser o veneno de outro homem; que nenhuma homem deve ser capaz de acrescenta para si riquezas, senão pelo trabalho; que ao acrescentar as riquezas dele pelo trabalho apenas, nenhum homem torna o outro homem mais pobre; que, no contrário, todo homem que por assim acrescenta às suas riquezas torna todo os outros mais ricos; que o aumento e a concentração de riqueza através do trabalho tende a aumentar, baratear e variar a produção; que todo aumento de capital nas mãos do trabalhador, na ausência de monopólio legal, tende a lançar mais produtos, melhores produtos, produtos mais baratos e uma maior variedade de produtos ao alcance de todo homem que trabalha; e que esse fato significa aperfeiçoar o físico, mental e a moral da humanidade e a realização da fraternidade humana. Isso não é glorioso? Uma palavra que significa tudo isso deve ser posta de lado simplesmente porque alguns tentaram casá-la com a autoridade? De jeito nenhum. O homem que concorda com isso, o que quer ele possa pensar de si mesmo, o que quer que ele possa se denominar, por mais implacável ele possa atacar a coisa que ele confunde em relação ao Socialismo é ele mesmo um socialista; e o homem que assina em direção ao seu oposto e age acerca do seu oposto, por mais benevolente que ele possa ser, por mais devoto que ele possa ser, seja qual for sua posição na sociedade, qualquer que seja sua posição na Igreja, qualquer que seja sua posição no Estado, não é um socialista, mas um Ladrão. Por isso existe, na essência, senão duas classes, — os socialistas e os Ladrões. Socialismo, praticamente, é uma guerra sobre a usura em todas as suas formas, o grande Movimento Anti-Roubo do século dezenove; e socialistas são as únicas pessoas para quem os pregadores da moralidade não tem direito ou ensejo para citar o oitavo mandamento, “Não roubarás!” Esse mandamento é a bandeira do Socialismo. Não apenas como um mandamento, mas como uma lei da natureza. Socialismo não determina; profetiza. Ele não diz: “Não roubarás!” Ele diz: “Quando todos os homens tem Liberdade, não irás roubar”.

Por que, então, minha senhora questionadora se contrai quando ela ouve a palavra Socialismo? Irei contar à ela. Porque um grande número de pessoas, que vê os males da usura anseiam em destruí-los, tolamente imagine que eles possam fazer isso pela autoridade e, portanto, estão tentando abolir o privilégio por centralizar toda produção e atividade no Estado para a destruição da concorrência e suas bençãos, para a degradação do indivíduo e para a putrefação da Sociedade. Eles são bem intencionados, mas pessoas mal orientadas e seus esforços são obrigados a prova abortiva. Suas influências são perniciosas principalmente nisso: que um grande número de pessoas, que ainda não tem visto os males da usura e não sabem que a Liberdade irá destruí-la, mas não obstante, acredita na Liberdade pela própria Liberdade, são levados a equivocar esses esforços para tornar o Estado o ser o tudo e o fim de tudo da sociedade para tudo do Socialismo e o único Socialismo, e, certamente horrorizado isso, para aguentá-lo como tal ao desprezo merecido da humanidade. Mas a própria crítica razoável e justa dos individualistas dessa linha sobre o Socialismo de Estado, quando analisada, são buscadas para serem dirigidas não contra o Socialismo, mas contra o Estado. Até agora a Liberdade está com eles. Mas Liberdade insiste no Socialismo, contudo, sobre o verdadeiro Socialismo, Socialismo Anarquista: a prevalência na terra da Liberdade, Igualdade e Solidariedade. A partir disso a minha senhora questionadora nunca irá se contrair.

Traduzido por Rodrigo Viana. Para ler o artigo original clique aqui.

Nota do Tradutor:

[1] Deficit (falha, deficiência) e efficit (criar, executar) são termos latinos que aqui querem dizer “A deficiência do trabalhador é equivalente a condição feita para o capitalista.



Benjamin Ricketson Tucker foi um anarco-individualista e um dos principais propagadores da teoria mutualista nos Estados Unidos. Atuou como tradutor, teórico político e econômico e editou o jornal anarquista "Liberty".

Veja também:

Nenhum comentário: