segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Socialismo: o que é



Por Benjamin Tucker

Publicado no jornal Liberty, 17 de Maio de 1884.

"Você gosta da palavra Socialismo?" disse uma senhora para mim outro dia; "Temo que não; de alguma maneira eu me contraio quando ouço isso. É associado com tudo que é ruim! Eu devo continuar assim?"

A senhora que fez essa pergunta é uma anarquista séria, uma grande amiga do jornal Liberty, e é quase desnecessário acrescentar — muito inteligente. Suas palavras exprimem o sentimento de muitos. Mas, afinal de contas, é somente um sentimento, e não irá suportar o teste de pensamento. "Sim", eu respondi, "é uma palavra gloriosa, muito maltratada, violentamente distorcida, estupidamente mal compreendida, mas expressa melhor do que qualquer outra proposta de progresso político e econômico, o objetivo da Revolução neste século, o reconhecimento da grande verdade de Liberdade e Igualdade, através da lei da Solidariedade, provocará o bem estar de cada para contribuir ao bem estar de todos. Então, uma boa palavra não pode ser dispensada, não tem de ser sacrificada, nem deve ser roubada".

Como isso pode ser salvo? Apenas por surgi-la fora da confusão que a obscurece, afim de que todos possam vê-la clara e definitivamente e o que fundamentalmente significa. Alguns autores tornam o Socialismo inclusivo de todos esforços para melhorar as condições sociais. Proudhon é renomado a ter dito alguma coisa do tipo. No entanto, isso pode ser, a definição parece ser ampla. Etimologicamente não é insustentável, mas derivativamente a palavra tem um maior significado técnico e preciso.

Atualmente (perdoe o paradoxo!) a sociedade é fundamentalmente anti-social. O conjunto assim chamado trabalho social repousa no privilégio e poder, e está desordenada e fatigada em toda direção pelas desigualdades que necessariamente resultam disso. O bem estar de cada, em vez de contribuir para o todo, como naturalmente deveria e seria, quase invariavelmente diminui a partir de todos. Riqueza é feita por privilégio legal, um gancho com que rouba das carteiras do trabalho. Todo homem que fica rico, por esse motivo, torna seu vizinho pobre. Quanto melhor um está, pior está o resto. Como Ruskin diz, "todo grão do Incremento calculado para o rico é equilibrado pelo seu equivalente matemático do Decremento para o pobre". O Deficit do Trabalhador é precisamente igual ao Efficit do Capitalista[1].

Ora, o Socialismo quer mudar tudo isso. O Socialismo diz que o que é carne de um homem não deve mais ser o veneno de outro homem; que nenhuma homem deve ser capaz de acrescenta para si riquezas, senão pelo trabalho; que ao acrescentar as riquezas dele pelo trabalho apenas, nenhum homem torna o outro homem mais pobre; que, no contrário, todo homem que por assim acrescenta às suas riquezas torna todo os outros mais ricos; que o aumento e a concentração de riqueza através do trabalho tende a aumentar, baratear e variar a produção; que todo aumento de capital nas mãos do trabalhador, na ausência de monopólio legal, tende a lançar mais produtos, melhores produtos, produtos mais baratos e uma maior variedade de produtos ao alcance de todo homem que trabalha; e que esse fato significa aperfeiçoar o físico, mental e a moral da humanidade e a realização da fraternidade humana. Isso não é glorioso? Uma palavra que significa tudo isso deve ser posta de lado simplesmente porque alguns tentaram casá-la com a autoridade? De jeito nenhum. O homem que concorda com isso, o que quer ele possa pensar de si mesmo, o que quer que ele possa se denominar, por mais implacável ele possa atacar a coisa que ele confunde em relação ao Socialismo é ele mesmo um socialista; e o homem que assina em direção ao seu oposto e age acerca do seu oposto, por mais benevolente que ele possa ser, por mais devoto que ele possa ser, seja qual for sua posição na sociedade, qualquer que seja sua posição na Igreja, qualquer que seja sua posição no Estado, não é um socialista, mas um Ladrão. Por isso existe, na essência, senão duas classes, — os socialistas e os Ladrões. Socialismo, praticamente, é uma guerra sobre a usura em todas as suas formas, o grande Movimento Anti-Roubo do século dezenove; e socialistas são as únicas pessoas para quem os pregadores da moralidade não tem direito ou ensejo para citar o oitavo mandamento, “Não roubarás!” Esse mandamento é a bandeira do Socialismo. Não apenas como um mandamento, mas como uma lei da natureza. Socialismo não determina; profetiza. Ele não diz: “Não roubarás!” Ele diz: “Quando todos os homens tem Liberdade, não irás roubar”.

Por que, então, minha senhora questionadora se contrai quando ela ouve a palavra Socialismo? Irei contar à ela. Porque um grande número de pessoas, que vê os males da usura anseiam em destruí-los, tolamente imagine que eles possam fazer isso pela autoridade e, portanto, estão tentando abolir o privilégio por centralizar toda produção e atividade no Estado para a destruição da concorrência e suas bençãos, para a degradação do indivíduo e para a putrefação da Sociedade. Eles são bem intencionados, mas pessoas mal orientadas e seus esforços são obrigados a prova abortiva. Suas influências são perniciosas principalmente nisso: que um grande número de pessoas, que ainda não tem visto os males da usura e não sabem que a Liberdade irá destruí-la, mas não obstante, acredita na Liberdade pela própria Liberdade, são levados a equivocar esses esforços para tornar o Estado o ser o tudo e o fim de tudo da sociedade para tudo do Socialismo e o único Socialismo, e, certamente horrorizado isso, para aguentá-lo como tal ao desprezo merecido da humanidade. Mas a própria crítica razoável e justa dos individualistas dessa linha sobre o Socialismo de Estado, quando analisada, são buscadas para serem dirigidas não contra o Socialismo, mas contra o Estado. Até agora a Liberdade está com eles. Mas Liberdade insiste no Socialismo, contudo, sobre o verdadeiro Socialismo, Socialismo Anarquista: a prevalência na terra da Liberdade, Igualdade e Solidariedade. A partir disso a minha senhora questionadora nunca irá se contrair.

Traduzido por Rodrigo Viana. Para ler o artigo original clique aqui.

Nota do Tradutor:

[1] Deficit (falha, deficiência) e efficit (criar, executar) são termos latinos que aqui querem dizer “A deficiência do trabalhador é equivalente a condição feita para o capitalista.



Benjamin Ricketson Tucker foi um anarco-individualista e um dos principais propagadores da teoria mutualista nos Estados Unidos. Atuou como tradutor, teórico político e econômico e editou o jornal anarquista "Liberty".

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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Mutualismo e “anarquismo de mercado”



Por Shawn P. Wilbur

Vamos abordar uma questão controversa: o mutualismo é uma forma de “anarquismo de mercado”?

É um tipo de questão útil, apesar da resposta correta ser provavelmente “que depende...”. Dado que o mutualismo possui suas raízes em um mundo onde as distinções que tornam um rótulo como “anarquismo de mercado” útil simplesmente não existia, distinções que podem elas mesmas ir contra ao projeto mutualista “clássico”, é tentador dizer “não”. Mas uma vez que estamos no processo de redescobrimento e recriando o mutualismo em um mundo onde a questão de “mercados” é de real importância, nós temos que resistir a tentação.

Para aqueles mutualistas que tem se mobilizado para a bandeira do “anti-capitalismo de livre mercado”, e para quem o mutualismo é, talvez em primeiro lugar, uma espécie de meio termo em um meio social anarquista/ liberal libertário altamente polarizado, o rótulo “anarquista de mercado” tem sido natural. Pegando sugestões do anarquismo individualista de gente como Benjamin R. Tucker, e enfatizando o controle monopolista de recursos e relações econômicas fundamentais como a primeira coisa a ser superada, é um passo fácil de falar (em Proudhon, por exemplo) sobre a dissolução do domínio político inteiro no âmbito econômico, para tornar “o mercado” a peça central de sua visão de uma sociedade livre. E não há como negar o trabalho absolutamente crítico que tem sido feito por anarquista de mercado anti-capitalistas para destacar as diferenças entre “capitalismo” (seja em sua realidade existente, forma histórica ou nas formas propostas e mais puras que ainda parecem depender de algumas formas de privilégio) e “comércio”. É também o caso de que certa resistência às relações de “mercado” no anarquismo seja um pouco equivocada, baseada nas mesmas narrativas históricas que tendem a tratar o mutualismo como um tipo de “doença infantil”, em que os mercados aparecem como evidência de que continua a ser “um pouco de capitalista”, ou tentar fazer distinções firmes entre o mutualismo, entendido como uma forma de “anarquismo social”, e as mais recentes formas de movimentos pela liberdade favoráveis ao mercado. Se nós quisermos discutir sobre quais as formas de anarquismo podem reivindicar ter sido no início, é difícil excluir alguém como Anselme Bellegarrigue que, afinal de tudo, caracterizava “A Revolução” como “pura e simplesmente uma questão de negócios”. Seu “primeiro manifesto anarquista”, a partir da primeira edição de Anarchy: A journal of order, é geralmente aceito como uma importante declaração anarquista inicial.

Mas talvez exista alguns bons motivos, ligando interesses clássicos e contemporâneos, para recusar o rótulo de “anarquista de mercado”. Deixe-me sugerir três.

  1. Sem dúvida, a análise dos mercados, que inicia com o reconhecimento de que nem todo comércio é redutível a “capitalismo”, não pára por aí. Quando começamos realmente a analisar os conceitos fundamentais associados aos mercados – afim de separar o que pertence ao “direito de aumento” capitalista e o que não pertence – nos encontramos diante de não apenas variedades de “mercados”, mas variedades de “lucro”, “concorrência”, etc. À medida que incorporamos o trabalho de sintetizar a economia política clássica com elementos da economia austríaca, cujo pioneiro tem sido Kevin Carson e outros, e redescobrir as formas em que figuras como Josiah Warren e Proudhon já incorporavam uma grande quantidade de valoração subjetiva bastante sofisticada em suas teorias, é quase certo que não é útil, em particular, tanto se apegar, quanto rejeitar, os “mercados” ou “o mercado” em um grupo. Então poderíamos rejeitar o rótulo “anarquista de mercado” afim de nos deixar um campo livre para aceitar ou rejeitar arranjos de mercado em uma base muito mais específica.

  2. Também é o caso de nos sobrecarregar com o rótulo “mercado”, que coloca uma ênfase especial em algum outro lugar que não no elemento que os mutualistas tem tradicionalmente considerado o aspecto realmente vital de sua abordagen: a mutualidade. Ao passo que ele era muito crítico em tempos tanto do “comunismo” quanto da “economia” de sua época, Proudhon estava defendendo algo em que “sintetizava” elementos de ambos, e o cerne de sua crítica parece ter ecoado a avaliação de “individualismo” e “socialismo” dado por Pierre Leroux. Tal como Leroux, Proudhon viu uma necessidade para equilibrar as tendências extremas – para, em essência, estabelecer um tipo de reciprocidade ou mutualidade entre extremos – afim de evitar uma oscilação constante entre polos proprietarista e comunista nas relações sociais. E o fundamento para estabelecer esse equilíbrio – o princípio sem qual os planos sem razão aparente dos reformadores e revolucionários foram, talvez, condenados a dar em nada, ou até terminar em algum estado oposto – foi uma aplicação consciente do princípio da mutualidade. Essa é a base em que nós iremos construir um mutualismo de bem sucedido e prático – e faz sentido evitar qualquer coisa que nos encoraje, ou aqueles que nos rodeiam. Imaginar algum outro mecanismo ou princípio é nosso foco real.

  3. O terceiro motivo para ficar com um pé atrás dos “mercados” é aquele que poderíamos facilmente aplicar para todas as instituições, até mesmo aqueles, como o “banco mútuo”, que tem sido nossos projetos exclusivos. Afinal de contas, existem sentidos importantes em que o mutualismo ainda é um pouco suspenso entre duas de suas eras de influência, e importantes aspectos do projeto mutualista clássico de que nós ainda temos que trazer pro presente, de qualquer forma muito útil. Um aspecto muito importante desse projeto, que nós temos até o momento que só se iniciou a se envolver, são as teorias de Proudhon de “força coletiva” e da natureza coletiva da individualidade, um corpo de teoria com implicações para qualquer teoria de direito mutualista, mas também para a análise mutualista de instituições. Outras escolas de anarquismo de mercado tem uma variedade de entendimento de como os mercados funcionam como ordens emergentes e, às vezes, como agentes virtuais e coletivos. Proudhon nos deu um outro conjunto de ferramentas para explorar estas questões, e para lançar um tipo de luz diferente nessa análise que eu estava falando de volta ao primeiro ponto. Existe também algumas questões gerais sobre a relação entre a circulação – certamente uma característica de mercado – e a concentração (como na propriedade, acumulação capitalista e etc.) que são, pelo menos, insinuadas na obra de Proudhon, o que pode dar-nos algumas ferramentas para orientar um mutualismo moderno dentro de um movimento anarquista, sem dúvida, rasgado em múltiplas direções por nossa falha de esclarecer a natureza dessa relação

Traduzido por Rodrigo Viana. Para ler o original clique aqui.


Shawn P. Wilbur é pesquisador, tradutor, professor e conferencista. Formado em História pela Oregon University, mantém um repleto arquivo virtual contendo trabalhos históricos de importantes nomes do anarquismo, socialismo, feminismo e outros.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Algumas notas rápidas sobre o que é e o que não é do Socialismo Libertário



Por Jakob Pettersson “Sushigoat”

Parece haver muita confusão sobre o que o socialismo libertário é, então eu decidi escrever abaixo algumas notas:

O socialismo libertário é anti-estatista, mas não necessariamente apátrida.

Essa é uma distinção importante. Embora a tendência comum de libertários socialistas seja ser a favor da completa apatridia, pode não ser necessariamente o caso. Comunistas de conselho, Comunalistas, Comunistas de esquerda, socialistas corporativos, todos deixam espaço para o governo se eles considerarem isso necessário. Parece haver uma tema comum de democracia participativa e governança face a face, ou da diminuição da ênfase da conquista do poder político. O governo é para ser mantido tão horizontal (e para alguns, local) quanto possível. O que é comum é também uma ênfase da mudança social e econômica FORA da máquina política, independente se a máquina política irá definhar ou permanecer de uma forma ou outra.

Controle do Trabalhador x da Comunidade

Não está sob acordo, dentro do movimento libertário socialista, se deve haver ou não o “controle dos tralhadores sobre os meios de produção”. Alguns acreditam que deve sim haver o “controle da comunidade” sobre o que tem sido produzido. Essa é uma importante distinção, por motivos óbvios. Mutualistas geralmente argumentam que os trabalhadores devem possuir suas empresas cooperativamente ou por meio do emprego autônomo, enquanto Comunalistas, como Murray Bookchin, argumentam que os consumidores devem ser os governadores do produto social, ao invés dos trabalhadores.

Comunismo não significa “propriedade coletiva”

Significa, como declarou Louis Blanc, “de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”. Isso quer dizer que a ênfase é sobre os direitos de acesso de fato, ao invés de títulos legais formais. Em sociedades igualitárias primitivas, os porcos, vacas, colheitas, plantas vizinhas e etc ERAM legitimamente considerados das próprias pessoas. Você não podia simplesmente pegar o gado ou a colheita das pessoas indiscriminadamente, exceto se você pedisse ou insinuasse em querer algo primeiro. O costume social era apenas dar se lhe pedissem para dar, sabendo que, mais cedo ou mais tarde, o outro agente retribuiria. Apesar da propriedade coletiva ou comum poder desempenhar um importante papel numa sociedade comunista, havia espaço para a propriedade individual, além de apenas a distinção de “propriedade pessoal” normal.

O socialismo libertário não é inerentemente anti-mercado

Apesar da maioria das vertentes libertárias socialistas enfatizar a cooperação, dizendo que o socialismo libertário é anti-mercado, isso é ser grandemente ignorante sobre a história do movimento. Proudhon e Bakunin, os padrinhos do movimento, ambos acreditavam em um mercado, baseado no valor-trabalho. Tem havido muitas ideias sobre sistemas de escambo local, cooperativas de crédito e mercados comunais [N. T.: mercado comunal é o sistema de mercado baseado em trocas entre comunidades, buscando adquirir bens ou serviços produzidos por outra comunidade. Podendo ser trocado por alguma certificação remunerativa, como cédulas de trabalho (do inglês, labour notes)]. Assim como nem todos os socialistas autoritários são anti-mercado, também nem todos os libertários socialistas são anti-mercado.

Tradução por Rodrigo Viana. Para ler o artigo original clique aqui.


Sushigoat é um blog que aborda assuntos corriqueiros, bem como anarquismo.

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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Propriedade social e propriedade política



Por Jakob Pettersson “Sushigoat”

Mutualistas estão numa posição incômoda: eles mesmos se rotularam como anti-proprietaristas e pró-proprietaristas ao mesmo tempo. A frase “A propriedade é roubo” dita por Proudhon é certamente muito mais citada do que o livro “O que é a propriedade?” é lido, muito menos o trabalho posterior de Proudhon. Isso se torna sobretudo confuso se você ler a defesa de Benjamin Tucker e Clarence Lee Swartz da propriedade individual, que traz à mente um nerd relaxado com uma arma apontada e balançando uma bandeira Gadsden [1] (brincadeira, brincadeira...).

A propriedade mutualista é normalmente resumida como “ocupação e uso”. É verdade que esse é o PRINCÍPIO no qual baseamos a posse legítima, porém esse princípio é geralmente aplicado só quando há um conflito em que se tem o direito de posse. Essa é a forma que o mutualista sempre enquadrou como uma resposta para o feudalismo da “propriedade privada” capitalista. Normalmente nunca se discutiu no mutualismo tradicional se a pessoa A poderia, de forma legítima, ir para a sua casa e roubar comida da pessoa B, enquanto B está longe. Eu acho essa preocupação um pouco boba. Acordos locais seriam feitos por todos os envolvidos para assegurar com que as pessoas não pisem nos calos dos outros. É a única maneira, dado que propriedade em material morto é uma construção social, não uma lei objetiva.

Em uma análise mais ampla, o mutualista promove não apenas uma vaga base de ocupação e uso de propriedade, eles promovem o que eu gostaria de chamar de Propriedade Social contra Propriedade Política. Propriedade política é a propriedade que só pode ser realizada e aplicada mediante um mecanismo estatal. Propriedade política só pode existir e ser mantida pela força do estado. Kevin Carson faz um trabalho brilhante ao nos mostrar como o Estado pode contribuir na criação, aplicação e manutenção do que hoje é conhecido como propriedade privada “capitalista” em seu ensaio destruidor de ilusões chamado The Iron Fist Behind The Invisible Hand (“O punho de ferro por trás da mão invisível”, tradução livre). É claro para os mutualistas que a propriedade capitalista como sendo um produto de uma economia livre é um mito destrutivo, uma fábula insultante. O domínio da posse privada sobre o capital e da propriedade territorial (efetivamente o feudalismo) só pode ser visto como uma classe utilizando o estado para expropriar o tempo de trabalho e o arrendamento a partir de outros. A propriedade socialista estatal também está incluída, muito embora seja instituída por diferentes motivo: para atacar a propriedade capitalista. Mas, como temos visto, é uma tentativa ridícula, já que a propriedade capitalista é um produto do próprio estado.

A propriedade social, em contraste com a propriedade política, pode ser melhor descrita como Robert Anton Wilson e Robert Shea colocaram nos livros da The Illuminatus Trlogy:

O teste é interrogar, de qualquer título de propriedade que você seja solicitado a aceitar ou o que você interrogará aos outros para aceitar, 'Isso seria honrado em uma sociedade livre e de racionalistas ou iria exigir o poderio armado de um Estado para forçar as pessoas a honrá-lo?' Se for o primeiro, ele... representa a liberdade; se for o último... representa o roubo.

A propriedade social é precisamente o que seria honrado por todos em uma sociedade livre, e isso é o que queremos que gira em torno da sociedade. Uma forma de interagir uns com os outros sem pisar nos calos de cada um. Sem o privilégio estatal aplicado distorcendo princípios de posse, nós poderíamos imaginar essa forma de propriedade se tornar a norma da sociedade: ela pode ser individual, coletiva ou comunal, mas nunca feudal, territorial e usurpadora.


As diferenças são claras: a propriedade social evolui da interação contínua de indivíduos livres em uma comunidade, através da realização de como nós podemos estruturar melhor a sociedade de uma forma mútua. Propriedade política é o oposto: não se importa com pessoas, só se preocupa com a vontade da pessoa que segura a arma. Ela não evolui; impede a evolução e subjuga as pessoas. Por isso, a propriedade social é nossa meta. A propriedade política permanece como nossa inimiga.

Nota do Tradutor:
[1] O autor faz uma provocação já comum contra os libertários de direita, especialmente nos Estados Unidos que é o país onde eles se concentram, ao dizer que eles só existem na internet e não fora dela. Isso é baseado no fato de que a militância e o ativismo político nas ruas sempre estiveram por conta dos anarquistas, e não de anarco-capitalistas.

Traduzido por Rodrigo Viana. Para ler o original clique aqui.


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Redes de seguridade social vs redes de seguridade anti-social



Por Jakob Pettersson “Sushigoat”

A crença em uma “rede de seguridade social” é geralmente relacionado ao progressismo ou a social-democracia de estilo escandinavo. Então é compreensível que o conceito seja normalmente ligado à uma função estatal e ao conceito de “estado inchado” (muito embora não seja necessariamente assim). O conceito tem sido posto em tentativas e, sob períodos de tempo, tem funcionado (veja a Suécia, o meu país de origem, por exemplo). Contudo, sempre que ocorre a queda inevitável na economia corporativa, a rede de seguridade social (leia-se os pobres) é falsamente responsabilizada, muito embora os culpados geralmente são os capitalistas e o privilégio de monopólio que eles recebem do estado.

Mutualistas, enquanto anarquistas, também acreditam em uma rede de seguridade social. Nós acreditamos que por causa da reciprocidade e progresso, é bom que nós cuidemos daqueles em piores condições na sociedade. Todavia, nossa rede de seguridade social é diferente. Eu tentarei explicar a rede de seguridade social que mutualistas preferem e como ela é diferente e (e preferível) sobre o estado de bem-estar social.

A rede de seguridade social mutualista: Ajuda Mútua

Ajuda Mútua é uma organização ou rede de trabalho em que bens e serviços são trocados voluntária e reciprocamente entre os membros para benefício mútuo. É um sistema de cooperação para atender às necessidades e cuidar de pessoas. Esta forma de organização tem existido por um longo tempo ao qual temos conhecimento, e definitivamente existe hoje em dia. Porém os mutualistas não desejam apenas pequenos números destas organizações. Os mutualistas buscam construir essa forma de organização, rede de trabalho, e associar sobre amplas áreas geográficas por meio da federação, gradualmente substituindo as funções existentes do estado. Após a queda do tíquete-feudalismo de nossos dias, elas serão a pedra angular fundamental da sociedade mútua.

Caridade privilegiada vs solidariedade recíproca

Oscar Wilde, em “A alma do homem sob o socialismo”, apontou o seguinte sobre bem-estar social e caridade:

Eles tentam resolver o problema da pobreza, por exemplo, por manter os pobres ativos; ou no caso de uma escola muito avançada, por entreter os pobres. Mas isso não é uma solução: é um agravamento da dificuldade. O objetivo apropriado é tentar e reconstruir a sociedade em bases dos quais a pobreza será impossível.
(…) É imoral utilizar a propriedade privada afim de aliviar os males horríveis que resultam da instituição da propriedade privada.

Embora ele não fosse um mutualista, nós concordamos com ele de que a caridade não é o objetivo da sociedade, mas a solidariedade. Bem-estar social é privilegiar tentando se justificar por gastar frações do que é saqueado do pobre em manter essas pessoas pobres de morrer. Solidariedade, na forma de organização de ajuda mútua, é um sistema de agentes iguais atuando juntos para promover reciprocidade e mutualidade.

Ademais, o estado é uma organização inerentemente anti-social. Como Mao colocou, é a autoridade política que vem do barril de uma arma. É um emprego para mandatar ou proibir. Quão absurdo é assumir que tal instituição resolveria os problemas da desigualdade? Igualdade social não pode ser mandatado de cima pelo estado porque o estado é uma desigualdade inerente, assim como o anti-racismo não pode ser mandatado por uma “raça superior”. Se nós quisermos a igualdade, nós devemos criar instituições que são iguais. Uma parte central da estratégia política mutualista é: criar redes de estruturas de ajuda mútua livres para gradualmente substituir as tentativas antigas e falhas do status quo para limpar sua própria bagunça.

Livre associação vs dependência forçada

A rede de seguridade social, afim de se manter fiel ao seu nome, deve dar às pessoas o direito de se associarem e desassociarem livremente. Quão “social” é forçar as pessoas a participarem de sua organização? Para que a estrutura permaneça social ela deve também ser voluntária. O estado de bem-estar social não é voluntário, mas a ajuda mútua é. Pode haver muitas redes de ajuda mútua diferentes se sobrepondo, e as pessoas que se sentirem insatisfeitas com uma rede de ajuda mútua em particular pode mudar para aquela que satisfaça as suas necessidades. Um outro benefício da livre associação é que se a estrutura é falha, todos podem rapidamente se desassociar e se reassociar sem os tediosos processos dos quais o estado de bem-estar social traz consigo.

Prestação de contas vs Burocracia

Hierarquia implica burocracia e isso é verdadeiro para o estado de bem-estar social também. Quando as pessoas, em situação de necessidade, se voltam para o estado em busca de cuidados, geralmente elas são atendidas com uma burocracia desanimadora e impessoal, com dificuldade de compreender a papelada, com perguntas sobre seus hábitos pessoais, e características que você preferiria manter consigo, etc... É difícil imaginar que a estrutura centralizada e de cima para baixo jamais poderia possuir o altruísmo mágico que os progressistas sociais atribuem e não atribuem à ela. Hierarquia, burocracia e centralismo tornam o suposto igualitarismo do estado de bem-estar social em uma piada perversa. A hierarquia, como Kevin Carson aponta [N. T.: em seu livro “The Desktop Regulatory State” (O estado regulador de área de trabalho, tradução livre)], é incapaz de processar de forma adequada a informação necessária para atender a sua função:

Não importa o quão perspicaz ou cheio de recursos eles são, não importa o quão prudente, como seres humanos em lidar com a realidade real. No entanto, pela sua própria natureza, as hierarquias isolam aqueles no topo da realidade sobre o que está acontecendo em baixo, e força-os a operar em mundos imaginários onde toda a inteligência deles se torna inútil. Não importa o quão inteligente os gestores são como indivíduos, uma hierarquia burocrática torna a inteligência deles menos utilizável.

Em uma sociedade de ajuda mútua, os interesses são tratados em uma estrutura democrática focada face a face. Informações sobre recursos disponíveis e as necessidades de cada membro são abertas à todos. Indivíduos são mais respeitosos para com outro, uma vez que todos eles estão mutuamente em dívida para com o outro. Diferente para a dívida que um beneficiário de bem-estar social tem ao assistente social. Interesses que exigem comunicação e tomada de decisão sobre uma ampla área geográfica seriam tratados por meio de uma federação exonerada e livre entre organizações locais, significando que o poder vem de baixo para cima, como o oposto do de cima para baixo. Organizações feitas de baixo para cima se iniciam com o indivíduo e se interligam dentro de uma federação complexa de indivíduos e grupos baseados nas escolhas destes indivíduos. Isso significa um grau de prestação de contas sem precedentes na desanimadora burocracia do estado de bem-estar social.

Em suma:

O bem-estar social é privilégio abrandando as bordas da própria tirania através da caridade, a ajuda mútua desmantela o privilégio e o substitui com a solidariedade recíproca.

O bem-estar social destrói o aspecto social da rede de seguridade por apontar uma arma no pescoço de todo mundo, a ajuda mútua se torna a realização completa do aspecto social por torná-lo voluntário e humano.

O bem-estar social utiliza os meios de menos liberdade, a ajuda mútua utiliza os meios de mais liberdade.

O bem-estar social cria dependência de muitos para com uns poucos, a ajuda mútua cria interdependência mútua de todos os envolvidos.

O bem-estar social tenta alcançar os fins de uma rede de seguridade social pelos meios de uma burocracia hierárquica desanimadora, a ajuda mútua tenta alcançar os mesmos fins através de uma democracia horizontal, humana e responsável.


O bem-estar social é a adolescência da justiça sócio-econômica, e a ajuda mútua é a sua adultícia.

Traduzido por Rodrigo Viana. Para ler o original clique aqui.


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Você não consegue Competir com a Cooperação – A artificial corrida de ratos do capitalismo



Por Jakob Pettersson “Sushigoat”

Os humanos são competitivos? Com certeza parece que sim e isso não é uma impossibilidade. Outros animais também são, como os gorilas machos competindo pela liderança sobre o grupo. Mas de que forma nós somos competitivos? Eu não penso, sob qualquer circunstância, de que somos competitivos no sentido capitalista como. Eu não penso, em uma sociedade completamente livre, que a ideia capitalista da “competição” vá ser predominante para qualquer extensão maior.

Por quê? Porque a competição capitalista é amplamente artificial. Está enraizado no financiamento coletivo da proteção da propriedade privada. Isto é, independente se você gosta ou não de título de propriedade, independente de se isso irá te afetar negativamente ou não, seus impostos entram para financiar isso. Um pequeno empresário paga pela grande corporação que está forçando-o para fora dos negócios, o vegano tem que pagar pelo abatedouro, o ambientalista pela empresa de petróleo e etc, etc. A lógica é que dado que a propriedade privada é um dom de deus, direito natural, nossos “caprichos subjetivos” não devem governar as relações de propriedade, somente um sistema legal cego que protege qualquer “fruto do trabalho de alguém” que aparece dentro dos limites das áreas geográficas dadas. Isto é, a concessão de propriedade não está sujeita à competição; mas a propriedade concedida sim.

A lei permite o homem comum ter uma opção para escolher (ou não) Pepsi ou Coca; a ele não é permitido dizer uma palavra se ele queira financiar ou não a proteção de qualquer empresa. Em uma sociedade livre, sem qualquer financiamento coletivo forçado, qualquer propriedade é considerada legítima pelo estado capitalista. É razoável assumir que as pessoas não colocariam recursos em proteção de propriedade que eles se opõem. Pelo contrário, propriedade é um projeto inteiramente comunitário. Indivíduos e grupos examinariam com seus vizinhos e/ ou comunidades mais amplas sobre se uma certa forma de propriedade seria permitida ou não. Todos nós sabemos que capitalistas não são exatamente muito populares nas comunidades; pegue o público desgostoso com o Wal-mart, tanto donos de pequenos negócios quanto ativistas trabalhistas. Quão razoável é dizer que uma comunidade apoiaria uma indústria destrutiva com os trabalhos e recursos deles? Não muito. Dado que uma sociedade livre significa livre associação, o público geral não se associaria com a indústria antagônica que ameace roubá-los fora da auto-suficiência deles. Dado que capitalistas não tem o benefício das classes mais baixas financiando suas indústrias sem o consentimento deles, a existência dos capitalistas não poderia ser economicamente justificada.

Anna Morgenstern explica, como segue:

Os anarco-capitalistas geralmente tem um ideia florida absurda do relacionamento entre patrão e trabalhador do qual não se baseia na realidade. Quase ninguém acorda e vai para o trabalho pensando "graças à Deus pelo meu maravilhoso chefe, que foi amável o bastante para empregar um derrotado como eu". Quando a invasão externa chega, a classe média irá defender a si mesma e sua própria propriedade. Mas eles não vão arriscar suas vidas pelo Wal-mart sem ter uma parte disso.

Se as comunidades estivessem no comando de alocar recursos para proteger a indústria de intrusão, certamente eles iriam preferir financiar aquelas indústrias que são mutuamente benéficas para todos. Comunidades buscariam aquelas formas de conduta econômica que fosse cooperativa, ao invés de competitiva. E num certo sentido está competindo contra o capitalista ou contra os títulos antagônicos de propriedade. Mas não é a competição vil e desumana que vemos ao nosso redor hoje; é uma competição para melhor cooperar. Como Kropotkin observou, a “sobrevivência do mais apto” na prática significa a “sobrevivência daqueles que melhor cooperam”. Agora mesmo os políticos e capitalistas são aqueles que melhor cooperam. O estado capitalista é necessariamente uma rede de ajuda mútua entre o mais rico e o mais poderoso; mutuamente benéfico para cada um em manter o poder deles. Se nós fôssemos nos unir para empoderar nossas próprias indústrias cooperativas e agir fora do status quo, nós iríamos arruiná-los. As funções principais dos governos e capitalistas são: (A) roubar pessoas a partir dos meios para satisfazer suas próprias necessidades; e (B) tonar as pessoas dependentes deles para agir como parasitas. Como uma piada de mau gosto, ele exigem que trabalhadores operários e camponeses sejam gratos a eles. Porque sem eles, quem satisfariam as necessidades deles? Nenhuma consideração é dada aos trabalhadores operários ou camponeses, se podem confiar neles próprios ou não.

Independente se você vê a propriedade como um dom de deus, direito objetivo, que ninguém pode agredir contra como uma lei da natureza, exigir que todos reconheçam seu título de propriedade e reunir recursos para proteger esse direito por meio de tributação violenta é uma negação dessa própria lei. Eu não estou agredindo contra qualquer propriedade que você tenha por não concordar em apoiar essa propriedade com meus pertences pessoais; na verdade, eu estou praticando esse próprio “direito”, mesmo se tal direito existe ou não. Se a comunidade em geral opta por não proteger a sua propriedade, eles não tem agredido contra, eles apenas não a reconhecem. Eles simplesmente tem tornado a consideração contínua de que propriedade privada é impossível para você. Azar o seu. A comunidade desassociaria contigo ela mesma e tornaria sua indústria um negócio de risco, dado que estaria sujeita a roubo e sabotagem. Você pode chorar junto a Locke e ao Direito Natural que você queira, mas você não pode exigir que a comunidade deva dar suporte a projetos que eles achem desagradáveis ou prejudiciais.


Se nós quisermos sobreviver por meio destes tempos terríveis, é essencial que nós cooperemos, ao invés de competirmos com cada um. Se nós quisermos fazer isso, nós devemos destruir as coisas que nos mantém competindo, chamado estado. Se o estado fosse abolido, títulos à posse se desenvolveriam por fora por meio do respeito e interação com a comunidade que isso afeta. Expressando de forma simples, em uma sociedade livre você não consegue competir com a cooperação.

Traduzido por Rodrigo Viana. Para ler o artigo original clique aqui.


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Sim, há uma alternativa ao capitalismo: Mondragon mostra o caminho



Por Richard Wolff

Há uma alternativa (“Princípio Tina”) ao capitalismo?

Sério? Estamos a crer, com Margareth Thatcher, que um sistema econômico com repetidos ciclos sem fim, resgates financeiros dispendiosos para financiadores e agora austeridade para a maioria das pessoas é o melhor que os seres humanos podem fazer? Tendências recorrente do capitalismo em direção a desigualdades extremas e profundas de renda, riqueza e poder político e cultural exigem de resignação e aceitação – por que não existe alternativa?

Eu entendo porque tais líderes do sistema gostariam que nós acreditássemos no Princípio Tina. Mas por que os outros?

Claro, alternativas existem; elas sempre existem. Toda sociedade opta – conscientemente ou não, democraticamente ou não – entre formas alternativas para organizar a produção e distribuição de bens e serviços que torna possível a vida individual e social.

Sociedades modernas tem, sobretudo, optado por uma organização capitalista de produção. No capitalismo, donos privados estabelecem empresas e selecionam seus diretores que decidem o que, como e onde produzir e o que fazer com a receita líquida das vendas da produção. Esse pequeno punhado de pessoas faz todas essas decisões econômicas pela maioria das pessoas – que faz a maioria do verdadeiro trabalho produtivo. A maioria deve aceitar e viver com os resultados de todas as decisões diretoriais feitas pelos principais acionistas e conselhos de diretores que eles selecionam. Estes últimos também selecionam suas próprias substituições.

Capitalismo, portanto, implica e reproduz uma organização altamente não democrática de produção dentro das empresas. Os crentes no Princípio Tina insistem que não existem alternativas para essas organizações capitalistas de produção ou não poderiam funcionar quase que tão bem em termos de processos de produção, eficiência e de trabalho. A falsidade dessa alegação é facilmente mostrada. De fato, foi-me mostrado em algumas semanas atrás e eu gostaria de esboçar isso para vocês aqui.

Em Maior de 2012 eu tive uma oportunidade de visitar a cidade de Arrasate-Mondragon, na região basca da Espanha. É a sede da Mondragon Corporation, uma alternativa incrível de sucesso referente a organização capitalista de produção.

A Mondragon é composta de muitas empresas cooperativas agrupadas em quatro áreas: indústria, finança, varejo e conhecimento. Em cada empresa, os membros cooperados (uma média de 80 a 85% de todos os trabalhadores por empresa) são donos coletivos e dirigem a empresa. Através de uma assembléia geral anual, os trabalhadores escolhem e empregam um diretor-gerente e retém o poder para fazer todas as decisões básicas da empresa (o que, como e onde produzir e o que fazer com os lucros).

Como cada empresa é uma constituinte da Mondragon como um todo, seus membros devem conferir e decidir com todas os outros membros de empresa quais regras gerais irão reger a Mondragon e todas as suas empresas constituintes. Em suma, os trabalhadores-membros da Mondragon escolhem, contratam e demitem os diretores, enquanto que nas empresas capitalistas o inverso ocorre. Uma das regras adotadas de forma cooperativa e democrática rege os limites dos trabalhadores/ membros da Mondragon mais bem pagos a ganhar 6,5 vezes o valor dos trabalhadores menos pagos. Nada mais demonstra de forma impressionante as diferenças distintivas dessa forma com a organização alternativa capitalista de empresas (nas corporações dos EUA, CEOs podem esperar a serem pagos a 400 vezes o salário do trabalhador médio – uma taxa que aumentou 20 vezes desde 1965).

Dado que a Mondragon possui 85 mil membros (de acordo com seu relatório anual de 2010), suas regras de igualdade de remuneração podem e contribuem para uma sociedade maior, com renda e igualdade de riqueza muito maior do que é típico em sociedades que tem optado por organizações capitalistas de empreendimento. Mais de 43% dos membros da Mondragon são mulheres, cujos poderes de igualdade com os membros do sexo masculino, da mesma forma, influenciam as relações de gênero na sociedade, diferente das empresas capitalistas.

A Mondragon mostra um compromisso à segurança no trabalho que eu raramente tenho encontrado em empresas capitalistas: ela opera, bem como internamente, através de empresas cooperativas especiais. Os membros da Mondragon criaram um sistema para deslocar trabalhadores das empresas que precisam de menos para aquelas que precisam de mais trabalhadores – em uma forma totalmente aberta, transparente e governada por regras e com viagem associada e outros subsídios para minimizar as dificuldades. Este sistema focado na segurança tem transformado as vidas dos trabalhadores, suas famílias e comunidade também de formas únicas.

A regra da Mondragon de que todas as empresas devem obter recursos a partir dos melhores e menos dispendiosos produtores – sendo ou não aquelas empresas também da Mondragon – tem mantido a Mondragon na vanguarda das novas tecnologias. De igual modo, a decisão para usar de uma parcela de cada receita líquida dos membros da empresa como um fundo para pesquisa e desenvolvimento tem financiado o desenvolvimento impressionante de novos produtos. R&D, junto com a Mondragon, emprega hoje 800 pessoas com um orçamento acima de 75 milhões de dólares. Em 2010, 21,4% das vendas das indústrias Mondragon eram de novos produtos e serviços que não existiam há cinco anos antes. Além do mais, a Mondragon se estabeleceu e expandiu a Mondragon University; inscreveu 3.400 estudantes em seu ano acadêmico de 2009 à 2010, e seus programas de graduação estão em conformidade com todos os requerimentos do quadro europeu de educação superior. O total de inscrição de estudantes em todos os seus centros educacionais em 2010 era de 9.282 alunos.

A maior corporação na região basca, a Mondragon, é também uma das dez maiores corporações (em termos de vendas e emprego). Muito melhor do que sobreviver desde a sua fundação em 1956, a Mondragon tem crescido de forma impressionante. Ao longo do caminho, foi adicionado um banco cooperativo, Caja Laboral (sustentando quase 25 bilhões de dólares em depósitos em 2010). E a Mondragon tem se expandido internacionalmente, atuando hoje em mais de 77 empresas fora da Espanha. A Mondragon tem provado para si mesma capaz de crescer e prosperar como uma alternativa para com as – e concorrente das – organizações capitalistas de empreendimento.

Durante minha visita, em encontros aleatórios com trabalhadores que responderam minhas perguntas sobre seus trabalhos e benefícios como membros de cooperativa, eu encontrei uma familiaridade e um senso de responsabilidade pela empresa como um todo que eu associo somente com gerentes e diretores principais em empresas capitalistas. Essa conversa simples (incluindo desacordo), por exemplo, entre trabalhadores de linha de montagem e gerentes principais dentro da fábrica de máquina de lavar Fagor que nós vistoriamos, foi igualmente extraordinário.

Nosso anfitrião da Mondragon na visita nos lembrou duas vezes que o empreendimento deles é uma empresa de cooperativas com todos os tipos de problemas:

Não somos um tipo de paraíso, mas sim, uma família de empresas cooperativas lutando para construir um tipo diferente de vida ao redor, de uma maneira diferente de trabalhar”.

Todavia, dado a performance do capitalismo espanhol nestes dias – 25% de desemprego, um sistema bancário quebrado e austeridade governamental imposta (como se não houvesse alternativa ao que seja) – a Mondragon parece um agradável oásis em um deserto capitalista.

Traduzido por Rodrigo Viana. Para ler o artigo original clique aqui.


Richard D. Wolff é professor de economia e lecionou economia de 1973 à 2008 na Massachusetts University. Atualmente leciona no programa de graduação em International Affairs do New School University, como em Brecht Forum.